Downton Abbey I


Pela primeira vez em cartaz na TV aberta, a série Downton Abbey (estreou na TV Cultura no comecinho de abril) é um testemunho primoroso do que costumamos chamar de passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna. A partir de 1912, mais especificamente com o naufrágio do Titanic, a história da família se cruza com a história mundial. Declara-se a Primeira Guerra, os trabalhistas chegam ao poder, as grandes propriedades entram em colapso por conta da segunda revolução industrial, os costumes se modificam, a decadência ameaça a oligarquia e ao mesmo tempo muda hábitos, valores, visões de mundo. Na Inglaterra, está chegando à sexta e última temporada, depois de prestar um excelente serviço de popularização da história da passagem do século XIX ao XX. Por conta da importância da Segunda Guerra Mundial, e de tudo que se modificou a partir dela, por vezes temos a noção histórica equivocada de que o século XX foi curto: começou em 1945, com o fim da guerra, e terminou em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Downton Abbey de certa forma ajuda a alongar o século XX no tempo e a fazer pensar sobre quão arraigados são determinados preconceitos de classe que ainda regem muitos dos comportamentos sociais.

Downton Abbey II

Era início do século XX na rica Inglaterra e os filhos nascidos em Downton Abbey foram entregues a uma babá. Para a aristocracia, as crianças não tinham em si nenhum valor, e a infância não passava de um período de crescimento durante o qual se era preparado para entrar no mundo adulto. Chamam a atenção, nesse sentido, a distância de Tom e de Lady Mary em relação a seus respectivos filhos recém-nascidos, e a importância do ritual de apresentação da jovem Rose. Ao completar 18 anos, ela é introduzida na corte inglesa em cerimônia com o príncipe. Daí em diante, terá seu valor reconhecido no mercado matrimonial. Crianças e jovens não tinham nenhuma autonomia sobre as próprias vidas, eram destinadas à manutenção dos interesses políticos e econômicos de suas famílias. A rigor, se pode alegar que as elites continuam agindo assim até hoje, mas talvez com uma sutil diferença. Era-se em parte mais explícito nos interesses de manutenção do status quo. Em compensação, eram todos mais educados ao tratar disso.

Downton Abbey III

A beleza dos cenários e dos figurinos da série é uma das suas características mais impressionantes. Todos os vestidos são lindos, ainda que os de Lady Mary sejam sempre mais elegantes (ou fiquem mais elegantes nela, que enverga a moda inglesa do início do século XX como se ali tivesse vivido). Iluminação de cinema, diálogos muito bem escritos, Abbey é uma destas séries que nos faz entender por que afinal de contas o cinema perdeu espaço para excelentes produções de TV. E ainda, na mistura e novelão de época com crítica de costumes, combina de forma quase perfeita ficção e realismo.

Downton Abbey IV

Entrando na quinta e penúltima temporada da série inglesa, as mulheres já começam a modificar seus comportamentos. Até a tradicional Lady Mary começa a achar que casar-se sem ter uma experiência sexual prévia pode ser um problema. Dois pretendentes disputam o dote da bela viúva, que escandaliza sua dama de companhia quando se diz disposta a fazer sexo antes do casamento. Durante toda a série, o que se vê nas transformações dos costumes, sociais, econômicas é um interessante movimento heterogêneo, em que não apenas a monarquia é conservadora, e nem sempre a classe média ou a classe operária é desejosa de mudanças.

Questão de classe

Downton Abbey, a série que retrata a vida da aristocracia inglesa no início do século passado, acaba de estrear na TV Cultura, e sua entrada na televisão brasileira tem muito a ensinar sobre uma das questões que atravessam a desigualdade brasileira: a divisão em classes. No Brasil de 2015, como na Inglaterra de 1910, o que entra em colapso quando se reconhece a centralidade da luta de classes é a própria ideia de que há um lugar destinado a cada um. Mais, aqui.

por Carla Rodrigues


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