A primeira vez que repeti em público a frase da filósofa Judith Butler – “O gênero não existe” – causei profundo estranhamento a feministas que vinham de uma linha de estudos e militância formada a partir da decisiva distinção sexo/gênero. Gênero como cultural, oposto a sexo como biológico, havia sido um conceito fundador da segunda onda do feminismo, e foi um operador da libertação do destino biológico das mulheres. Era preciso – a rigor, infelizmente, ainda é – reivindicar que o sexo anatômico não pode fundamentar hierarquias sociais, políticas e econômicas. Para continuar lendo, clique aqui.

“O clamor de Antígona — Parentesco entre a vida e a morte”, de Judith Butler, é uma ótima notícia e, ao mesmo tempo, a constatação de um descompasso. Filósofa consagrada nos estudos de gênero, Butler tinha até então apenas um livro traduzido — “Problemas de gênero — Feminismo e subversão da identidade”, lançado em 2003 pela Civilização Brasileira e esgotado há alguns anos. O descompasso começa a ser reduzido com o lançamento de “O clamor de Antígona”, cuja originalidade da abordagem da tragédia de Sófocles, lida e relida na Filosofia, no Direito e, depois de Lacan, na psicanálise, interessa a estudiosos de diferentes áreas. Tomada por Butler como alegoria para a crise contemporânea do parentesco, o amor incestuoso da personagem por seu irmão é o ponto de partida para o questionamento do que se pretende chamar de “normalidade familiar”. O mais interessante da sua crítica é a ampliação do debate para toda a sociedade, o que certamente faz de “O clamor de Antígona” uma leitura indispensável nos estranhos tempos que correm. Texto completo aqui: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro-de-judith-butler-revisita-antigona-14751284

“Esse negócio de ser mulher é mais difícil do que parecia originalmente”, diz Judith Butler lá pelas tantas, já não sei mais onde está a frase, usei como epígrafe porque adorei, mas perdi a referência. Afirmar-se feminista é também mais difícil do que parecia originalmente, por que uma das características mais importantes do movimento feminista é não ser – é não poder ser, insisto – estabilizado numa única forma política. Feminismo tem a ver com questionamento de subalternidades, venham elas de onde vierem, contra quem for. Há dias que afirmar-se feminista é mais difícil que em outros. Os dias mais difíceis são aqueles em que cobra-se de um suposto feminismo unificado numa bandeira comum uma posição que seja absolutamente contra os homens, absolutamente a favor das mulheres. Nesse dias, em que pensar relativamente parece impossível, a única a coisa que me resta é dizer: há mais coisas entre a misoginia e a misandria que a nossa vã filosofia possa imaginar.

Lena Dunham, atris e roteirista da série Girls, problematiza no sexo tudo que significa para uma mulher não atender à expectativa forjada em moldes impossíveis, incluindo seus problemas com a balança. Texto completo aqui: http://www.blogdoims.com.br/ims/garotas-substantivo-plural

Uma das coisas estranhas da vida de professor universitário é a relação com as chamadas agências de fomento. Você segue os editais, pede os recursos, ganha ou não, tudo isso é do jogo político, ou pelo menos é do jogo de uma política universitária que está pautada por poucos recursos e uma acirrada disputa por eles. Até aí, ok. O estranho, pra mim, está na forma como os professores universitários são tratados pelos funcionários das agências de fomento. Já tive a oportunidade de me relacionar com pelo menos três delas. Numa, ao preencher um formulário, o funcionário tentava ser educado, mas na verdade me tratava como uma incapaz. Dizia, em voz tabi-tati: “Professora, aqui a senhora escreve o seu nome”, como se eu fosse incapaz de saber como preencher um campo de formulário onde está escrito “nome”. Saí de lá irritada, mas convencida de que tratava-se da velha confusão da cultura brasileira entre delicadeza e babaquice. Em outra agência, precisei esclarecer uma dúvida por telefone. Tudo bem, era em Brasília, e tola fui eu que esperava alguma coisa da capital federal. Fui tão mal tratada pelo funcionário que tive vontade de armar um barraco. Não armei, claro, ou não veria a cor do dinheiro e o evento apoiado estava prestes a começar. Há uma mistura estranha de superioridade arrogante de quem concede o recurso – o que é um equívoco óbvio – com esperada humildade de quem recebe o recurso, o que é outro equívoco óbvio. Se as agências concedem recursos, não o fazem como um favor. Se os professores pedem recursos, não o fazem por necessidade pessoal, não é algo de que se envergonhar, como se estivéssemos pedindo dinheiro emprestado num agiota. Por fim, tendo sido duas vezes contemplada com verbas do CNPq, considero um caso raro de centro de excelência no que tange ao relacionamento com os professores, ao tratamento em tom respeitoso, à informatização dos processos etc. Nas outras, ainda há muito a fazer para que de fato se tornem “agências de fomento”.

por Carla Rodrigues