Neymar


Se eu entendi bem, a Fifa puniu o jogador da mordida extra-campo, com base em imagens vistas depois. A mesma coisa não deveria valer pra punir o cara que quebrou a vértebra do Neymar? O que delimita uma punição dentro/fora do gramado? Quando a mordida foi punida, acompanhei um debate sobre o que poderia ser um excesso da Fifa e me interessei pela questão, que obriga a pensar sobre os limites da tecnologia e sobre como essa mesma tecnologia nos faz perceber que é impossível delimitar o dentro/fora do gramado.

Copa das copas

Mesmo que, como eu, você também não ligue a mínima para futebol, com a politização da Copa do Mundo e os jogos na porta de casa, é impossível ficar indiferente. Duas leituras hoje indicam como a Copa do Mundo não se limita à bola que rola nos gramados. Na sua coluna semanal para a Folha, Vladimir Safatle fala daquilo que tem nos mobilizado há mais de um ano: a Copa como megaevento internacional, rendido ao capital e ao padrão Fifa (que, aliás, está longe de ser sinônimo de padrão de qualidade). Neste excelente artigo para o Observatório da Imprensa, Sylvia Moretzsohn discute as intricadas relações entre a política do futebol e a política da imprensa. Golaço.

Obrigada, Rose

Um dia, há quase dez anos, quando terminei de entrevistar Rose Marie Muraro, fiz questão de, encerrada a tarefa, agradecê-la. Devo ter dito uma frase meio piegas, a única que me ocorreu na hora, mais ou menos assim: “Muito obrigada. Sem a sua luta, a minha geração não teria chegado onde chegou”. Ela se surpreendeu tanto que, mesmo mas já doente, iluminou o rosto com um sorriso generoso. Fui embora daquele pequeno apartamento no Bairro Peixoto, em Copacabana, pensando como cada geração de mulheres chegava à idade adulta tomando como natural o que, na verdade, havia sido duramente conquistado pelas gerações anteriores. Ela acabara de me contar, ainda com mágoas, sobre as centenas de vezes que foi chamada de bruxa, mal-amada, feia, prostituta, e como toda a violência havia afetado a sua vida e a dos cinco filhos. Rose caminhava muito lentamente, resultado da doença, mas também como se ainda carregasse no corpo o peso do seu pioneirismo. http://www.blogdoims.com.br/ims/a-rose-muito-obrigada

Sobre o novo tempo do mundo

Há 40 anos formando gerações de pesquisadores na USP, Paulo Arantes é um filósofo na completa acepção do tenno. Sua filosofia é feita da mesma matéria que dá titulo ao seu livro, O novo tempo do mundo, da coleção Estado de Sítio, coordenada por ele na Boitempo Editorial, e carregada de uma dura ironia que permeia seu discurso, seja nas entrevistas, seja na escrita dos nove ensaios que configuram o estilo das 460 páginas de um autor que se define como pesquisador da “teoria critica do mundo contemporâneo”. Teoria critica voltada contra o capitalismo e todas as suas formas de opressão econõmica, social, cultural ou política.

Arantes contesta os argumentos dos que, de tempos em tempos, reivindicam para o Brasil “um choque cavalar de capitalismo”. A rigor, escreve ele, o Brasil padece desde o início de um excesso de capitalismo. “Nascemos como um negócio.” Na mesma linha de critica ao contemporâneo, Arantes traz entre seus escritos um longo texto sobre as manifestações políticas que tomaram as ruas desde o ano passado. Em “Depois de junho a paz será total”, volta sua verve crítica para pensar as reiviIidicações de que protestos políticos só são legítimos se forem pacíficos e o significado de o Brasil vir a sediar dois megaeventos, Copa e Olimpíada. “São rituais de massa e como tal, um tremendo dispositivo de governo, algo como um não menos tremendo centro emissor de comandos pacificadores, pois é preciso que durante a Copa a paz seja total. Até os ambulantes serão vacinados.” Estado de exceção, argumenta, em que cada arena para os jogos serã uma situação de sítio, e cada sede, um zoneamento de ocupação militar. E se alguém lhe perguntar pelo legado dos jogos, o tiro é certeiro: “Quando o megaevento se for, tudo isso ficará na praia à espera da próxima maré, repetindo-se religiosamente os mesmos rituais de segurança, um ponto zero acima. Se há um real legado da Copa, é justamente o da atualização acelerada dos aparatos coercitivos de vigilância e punição.” Capitalismo e segurança, negócios e opressão, novidade e história, articulações que aninam a combinação entre sarcasmo e agudeza intelectual de Paulo Arantes.

Leia aqui a entrevista completa: http://blogdaboitempo.com.br/2014/05/11/no-tempo-das-emergencias-uma-entrevista-com-paulo-arantes/

Está na hora de rasgar aquelas faixas que reivindicavam “Alguma coisa padrão Fifa”. Tudo que deu errado até agora na Copa foi “padrão Fifa”. Da abertura ridícula que nos envergonhou, passando pela falta de comida nos estádios, e chegando na corrupção tão bem denunciada por este jornalista português, o padrão Fifa reúne o que há de pior no capitalismo global. Taí o que não precisamos, de mais nada “padrão Fifa”.
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/jornalista-portugues-expoe-casos-de-corrupcao-na-fifa-defende-mudancas-profundas-na-entidade-12944338

por Carla Rodrigues