Tendo tido o privilégio de perfilar a escritora mineira Conceição Evaristo, me sinto parte do sucesso desta mulher negra que nasceu empregada doméstica e agora está entre as finalistas do prêmio de literatura mais importante do país. Dela, leia o poema “Da calma e do silêncio”.
Documentário “A palavra encantada” mostra na tela a beleza da língua portuguesa e a qualidade musical de um país no qual, como disse o Chico Buarque, houve um tempo em que as pessoas subiam o morro para comprar samba. O premiado filme de Helena Solberg é encantador.
Último diálgo entre um filho e seu pai, “Um terno de pássaros ao sul” é o segundo livro do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar. Escrito há sete anos, é relançamento da Bertrand em edição atualizada. Premiado, chega mostrando a força editorial da boa poesia.
É um livro pequeno, singelo, discreto. É verdadeiramente poesia em prosa. É, como o autor define: “A frase que martela na cabeça vale mais do que a história que eu tenho para contar. Vou lher dizer uma coisa. Eu queria dizer, de modo muito simples, uma única frase bem colocada”.
Tensão
Fazer poesia
é tensionar
o que meu olhar
quer contar
e o que meu sentir
quer fingir
É desta tensão que vem
o tesão do poema
Natureza morta
ainda vou dar
uma mordida
numa maçã de Cézanne
deixar escorrer o suco
molhar o sexo
cheirar a frutas
sorver o proibido
beber esta abstração
esta pintura pós-impressionista
desfocando a minha vida
ainda vou dar
uma mordida
numa maçã de Cézanne
e me acabar em pinceladas
o caos disforme
conforme a música
Ou isto ou aquilo
Você diz ou dá ou desce
Ele desce
Você diz agora ou nunca
Ele nunca
Você diz tudo ou nada
Ele nada