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Menos que uma menina


Publicado no Valor Econômico em 18/10/2013

A sociedade tradicional organiza os diferentes aspectos da vida em obediência a valores religiosos ou míticos que ordenam o funcionamento da comunidade. Já nas sociedades modernas, que exigem a convivência entre visões plurais de mundo, torna-se impossível manter a ordem social pela tradição. A passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna ocidental costuma ser pensada como um passo importante em direção ao progresso, à razão e às luzes. É essa passagem que a parlamentar afegã Fawzia Koofi, 38 anos, vem testemunhando no curto espaço de tempo que separa seu nascimento, no vale de Koof, interior do Afeganistão, até o lançamento de sua candidatura à presidência do país, em 2014. Quando nasceu, a ordem tradicional da sociedade afegã aceitava com naturalidade que sua mãe – uma das sete esposas de seu pai –, a abandonasse um dia inteiro ao sol para morrer pelo simples fato de ser uma filha mulher, por ser dukhtarak, termo depreciativo que significa “menos que uma menina”. Hoje, é presidente do parlamento afegão e herdeira do legado político deixado pelo seu pai e por seu avô, ambos lideranças na comunidade rural onde ela cresceu vendo as mulheres da família apanharem.

“Espancar uma mulher era normal, era parte do casamento. As meninas cresciam sabendo que isso tinha acontecido com suas mães e avós e esperavam que isso fosse acontecer com elas”, lembra Fawzia em seu segundo livro. O título, “A filha favorita”, lançamento da editora Objetiva no Brasil, um dos 10 países em que está traduzido, é uma referência ao primeiro episódio marcante de sua trajetória: assim que nasceu, foi deixada durante 12 horas ao sol, de onde saiu no fim do dia com queimaduras na pele de recém-nascida e marcada pela tradição de rejeição às mulheres. Por ter sobrevivido, Fawzia se transformou na filha favorita, naquela por quem sua mãe lutou para proporcionar tudo aquilo que ela mesma não pudera ter: educação formal, ensino de inglês, e até um casamento que, embora arranjado entre as famílias, era da preferência da filha.

Ao lado do relato dramático que faz à jornalista Nadene Ghouri, Fawzia pontua o texto autobiográfico com cartas escritas às duas filhas, correspondência que faz parte de sua intensa rotina de trabalho. Ela tenta explicar a duas crianças como era sua infância nos jardins verdes de Koof antes do assassinato político de seu pai, que obrigou a família a fugir e impôs a Fawzia um longo percurso de vida marcado pela violência da guerra civil, que compreende um período histórico do Afeganistão marcado pelo terror imposto pelo Talibã. Grande parte do livro de Fawzia é uma tentativa de mostrar a diferença entre o islamismo tradicional e o totalitarismo talibã, que impôs ao Afeganistão um regime de proibições e prejudicou principalmente as mulheres. “Fico muito triste em saber que várias pessoas do mundo têm uma visão negativa de nosso país e de nossa cultura. A realidade é que muitas pessoas acham que todos os afegãos são terroristas ou fundamentalistas. Mas, sob isso tudo, há um país com uma grande história, de iluminação, de cultura. Também é uma nação onde a honra, a fé, a tradição e o dever não conhecem fronteiras. Essa, minhas queridas meninas, é uma terra da qual devemos nos orgulhar”, escreve Fawzia em uma das cartas.

Esse tom é o mesmo adotado no seu discurso de candidata à presidência da República. Primeira mulher a ocupar a liderança do parlamento afegão, Fawzia vive em Cabul, onde antes de ser eleita, trabalhou no Unicef como oficial de proteção à criança. Em um dos capítulos do livro, conta como deu razão aos EUA quando, depois do 11 de setembro, enviaram tropas ao Afeganistão para derrubar o Talibã. O apoio aos EUA pode ser entendido como reflexo de lugar muito específico ocupado por ela no campo político: ao mesmo tempo em que defende a democracia e a saída do fundamentalismo imposto pelo Talibã, usa véu, defende o uso do véu como parte da cultura islâmica, e acena com compreensão para aqueles que seguiram o Talibã, argumentando que muitas vezes essa adesão se deu pela força.

Apesar de sua defesa do país, é pelas forças políticas conservadoras deste mesmo Afeganistão que Fawzia vem sendo ameaçada de morte desde o início de sua carreira política. Para se candidatar, foi preciso pedir permissão aos seus irmãos – muitos eram contrários –, já que a tradição dava a eles o direito de continuar o trabalho político do pai. Primeiro, ganhou em casa. Agora, tenta vencer nas ruas a combinação entre preconceito e tradição que há anos vem legando às mulheres afegãs o papel secundário – dukhtarak – cuja chance de superação a trajetória de Fawzia parece apontar.

A sua trajetória de vida mostra como foram profundas as mudanças na vida das mulheres no Afeganistão nestes 38 anos. A que a senhora atribui tantas transformações numa sociedade tão tradicional?

Fawzia Koofi – Em primeiro lugar, acho que houve uma mudança de gerações. Existem diferenças entre a vida que eu tive e a vida das minhas filhas, por exemplo. Quando eu era criança, a luta era conseguir ir para a escola. Já para minhas filhas, o desafio é ir para a melhor escola. Hoje, elas têm acesso a mais coisas, mais facilidades, coisas que eu não tive. Aconteceram muitas mudanças positivas a favor das mulheres. Hoje, temos liberdade para participar da política, para viajar a outros países, participar ativamente da sociedade. Eu testemunhei muitas mudanças, algumas foram mudanças militares, principalmente com o Talibã, durante a guerra civil. Em muitas ocasiões, ocorreram mudanças que atrasaram ou prejudicaram as mulheres. Eu gostaria de ver, a partir de 2014, mudanças não só para o povo do Afeganistão, mas também em outros países.

A senhora reconhece que deve o início da sua carreira política à tradição da família. Seu pai e seu avô – todos homens – eram políticos. Como a senhora consegue equilibrar as exigências tradicionais com as demandas de renovação?

Fawzia Koofi – Não é fácil. Você disse bem, eu venho de uma família de políticos, porém, muito tradicional. Para lutar por mudanças na sociedade, tive que começar buscando mudanças dentro da minha própria família. Tive que convencer os homens da família, como meus irmãos, a permitir que uma mulher entrasse para a política. Portanto, numa sociedade tão tradicional como a nossa, a mulher que tiver vontade de entrar para a política precisará enfrentar primeiro a família. Só depois de conseguir isso ela poderá lutar por mais mudanças na sociedade. No início, não foi fácil porque havia membros da família que eram contra minhas atividades, por achar que eu não deveria estar fazendo aquilo. Com o tempo, perceberam que eu recebia o apoio de muita gente e começaram a ter orgulho de mim. Muitos eram contra no início, me criticavam pelo que eu dizia e fazia. Depois, viram que eu estava fazendo coisas pela comunidade e recebia o apoio da comunidade. Por isso, qualquer mulher que queira mudar a sociedade, tem que mudar a visão daqueles que estão à sua volta, e isso não é fácil.

Seu livro é um grande esforço de diferenciar os valores tradicionais do islamismo do radicalismo retrógrado do Talibã. A senhora se apresenta de véu, defende o direito das mulheres de usá-lo, e se coloca a favor da cultura tradicional islâmica. Esses valores culturais que a senhora defende são compatíveis com sua aspiração de presidir o país?

Fawzia Koofi – Em primeiro lugar, o islamismo que o Talibã defende não é o mesmo islamismo que a maioria do povo acredita. É uma mistura, uma interpretação do verdadeiro islamismo.O problema na nossa parte do mundo será sempre essa combinação de aspectos tradicionais da cultura com aspectos negativos da religião. A minha luta no Afeganistão é pela defesa dos direitos das mulheres no islamismo. Infelizmente, em nome da religião, sempre foram impostos às mulheres ideais que são gerados pela dominação masculina. Analisando outros países muçulmanos, como a Malásia, Indonésia, até a Turquia, vemos que eles superaram um pouco esses aspectos da cultura tradicional em muitas setores da política. Precisamos de algo assim no Afeganistão. A longo prazo, precisamos encontrar um caminho entre o verdadeiro islamismo e o que é profetizado em nome do islamismo, principalmente em relação aos direitos das mulheres.

O Talibã representou um enorme retrocesso político e social para o seu país. O Talibã ainda tem força política no Afeganistão? É contra eles que a senhora é candidata à presidência?

Fawzia Koofi – O Talibã, infelizmente, sempre foi uma minoria da sociedade, no entanto, por terem sido sempre tão brutais e bárbaros em seus objetivos e ao tentar impor seus ideais às pessoas, eles chegaram de certa forma a dominar o Afeganistão. Porém, no novo Afeganistão, que é um país transformado, acredito que eles não vão mais conseguir impor o regime Talibã, isso não será mais aceito. Grande parte do povo quer um novo país, no qual as crianças possam ir à escola, no qual exista liberdade de expressão, no qual estejam garantidos os direitos básicos de uma democracia para todo ser humano que deseja viver com dignidade e liberdade. Não acredito que esse país que está vendo tantas transformações esteja disposto a aceitar o regime Talibã, que impõe tantas regras e limitações ao povo, sejam homens ou mulheres. Portanto, acho muito difícil que o Talibã tenha influência da mesma forma que aconteceu em 1996, pois eles se tornaram marginalizados, assim como seus ideais. Infelizmente, existem diferentes grupos semelhantes ao Talibã, que gostariam de controlar o país com violência e armas. As pessoas estão cansadas dessa situação de violência, se dermos mais poder ao povo e se escutarmos o que o povo diz, me parece claro que o povo não está mais interessado em ouvir o que o Talibã tem a dizer. Meu objetivo é representar esse Afeganistão novo e transformado, as mudanças que ocorreram no país e não são mostradas pela mídia. Somos um povo que vive de forma pacífica, com respeito e dignidade, em busca de desfrutar o direito básico de liberdade, como em muitos outros países. Meu objetivo é representar essa maioria do povo que não tem voz.

Sua mãe era analfabeta, mas a sua possibilidade de ir à escola foi decisiva na suas chances de percorrer um caminho de emancipação feminina. Quais são hoje as condições para que as meninas estudem no seu país?

Fawzia Koofi – Acho que a educação, principalmente o acesso das meninas à educação, é uma das conquistas que tivemos após 2001, desde a invasão ao país. A situação mudou bastante, as mesmas famílias que eram contra suas filhas irem à escola há muitos anos, hoje querem ver as filhas na escola. Há uma aceitação maior em relação a isso; porém, infelizmente, em algumas partes do país há meninas que são mortas, atacadas, isso ainda acontece. Meninas que vão para a escola ainda sofrem com isso, elas passam por circunstâncias difíceis para estudar, algumas são agredidas simplesmente pelo fato de irem à escola. É realmente uma situação muito complexa. Por um lado, há o interesse das comunidades, das famílias e das próprias meninas de irem à escola, de continuar estudando. Por outro lado, a situação às vezes se torna tão difícil, que as famílias não querem mais que elas estudem. O que queremos fazer é continuar incentivando as famílias a deixar, e melhorar todas essas dificuldades sociais e de segurança.

Há no seu livro uma insistência em afirmar seu orgulho de ser afegã, o mesmo orgulho que está nas suas cartas para suas filhas. A senhora acredita que um dia o Ocidente poderá ter do seu país uma nova imagem que não seja associada ao terrorismo?

Fawzia Koofi – Acredito muito no potencial do país, em relação ao povo, ao modo de vida, a uma compreensão mais profunda do povo sobre nossos valores e nossa cultura. Acredito que a sociedade vai tornar este país diferente, um país confiável para o resto do mundo e mais seguro para os habitantes. Passamos por situações muito difíceis durante 14 anos de conflitos e guerras. Apesar disso, o povo do Afeganistão é alegre e otimista, as relações familiares e os valores persistem. Imagine se todos esses conflitos e guerras ocorressem em um país que não tivesse uma base familiar forte, os problemas sociais aumentariam e talvez houvesse muita gente sem lar. Acredito que por causa dos nossos valores e relações familiares, não sofremos tanto como outros países em pós-conflito, isso mostra nossos valores. É claro que existem muitos problemas, existe pobreza, falta educação, infelizmente. Ao mesmo tempo, temos muitas coisas do que nos orgulhar: uma delas é a nova geração, somos uma nação jovem; a nossa história é repleta de lutas por liberdade, prezamos nossos valores. Além disso, temos também a bela natureza do país, os recursos naturais, temos muitas riquezas, inclusive os bilhões de dólares sob nosso solo.

Conexão Agamben – o tempo de uma nova comunidade

Publicado no caderno Prosa e Verso, O Globo

“O que mais impressiona nas manifestações (…) é, de fato, a relativa ausência de conteúdos determinados de reivindicação…”. Em elaborações mais ou menos parecidas, algumas vezes acompanhadas de expressões de perplexidade como “afinal, o que querem os manifestantes?”, frases como esta foram repetidas exaustivamente desde que as revoltas de junho começaram, espalhando pelas ruas do país milhares de manifestantes em torno de pautas de reivindicação difusas — como em tantos outros protestos de rua que eclodiram nos últimos dois meses — ou com demandas específicas, como as do Movimento Passe Livre. A frase completa, no entanto, é do filósofo Giorgio Agamben, se refere aos protestos da Praça da Paz Celestial, e está publicada em “A comunidade que vem”, lançado na Itália em 1990.

Quem chama atenção para a semelhança entre o Brasil do século XXI e o que Agamben pensa sobre a China de 1989 é Cláudio Oliveira, professor do departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenador da coleção Filô Agamben e tradutor do livro, lançamento da Autêntica e um dos três títulos do autor que estão chegando às livrarias por editoras diferentes, indicando o interesse e a atualidade do pensador italiano.

Atualidade que é a marca de um filósofo difícil de ser enquadrado nas concepções tradicionais de filosofia, dividida classicamente entre antiga, medieval, moderna e contemporânea, onde ele, nascido em 1942 deveria se situar. Mas como suas influências principais já são de autores contemporâneos, como Martin Heidegger, Walter Benjamin, Michel Foucault, Jacques Derrida e Hannah Arendt — onde se pode localizar muito da sua influência para pensar a política — Agamben acaba sendo símbolo de uma renovação filosófica do século XXI.

Em “A comunidade que vem”, Agamben pensa sobre aquilo que, até recentemente, não parecia ser um modo político de pensar uma comunidade: não fundada em ideais de identidade e universalidade. Com as manifestações de junho, a rejeição a instituições políticas como partidos ou sindicatos, a “comunidade que vem” se torna uma chave para pensar o que Agamben chama de “singularidades quaisquer”. Oliveira lembra como o filósofo aponta para essa ausência de conteúdos determinados como um paradigma do seu pensamento político: “A política da singularidade qualquer, isto é, de um ser cuja comunidade não é mediada por nenhuma condição de pertencimento”, escreve Agamben no mesmo capítulo sobre a comunidade que vem. Essa ausência de pertencimento se refletiu nas ruas brasileiras em slogans como “sem partido” ou “sem bandeiras”, forma de fazer política que também pode ser pensada a partir de Agamben, para quem o grande alvo — na China, mas, segundo Oliveira, também no Brasil — era o próprio Estado. Por isso, o tradutor destaca como nova característica da política o que Agamben identifica como não mais a luta pela conquista ou pelo controle do Estado, mas a luta entre o Estado e o não-Estado.

Outros caminhos podem ser traçados para fazer conexões entre a obra de Agamben e o momento político brasileiro. Pela Boitempo Editorial, chega às livrarias “Opus Dei — Arqueologia do ofício”, tomo 5 do volume II de sua principal obra, “Homo sacer”, que começou a ser publicada na Itália em 1995 e comporta até agora sete livros, dos quais seis já estão traduzidos no Brasil. Ao contrário do que pode sugerir o título, “Opus Dei” não é uma investigação sobre a poderosa organização católica homônima, mas uma arqueologia do conceito de ofício que, segundo Agamben, exerceu profunda influência sobre a cultura moderna. Um debate que também pode se ligar aos protestos de junho, quando ele diz que “real é só o que é efetivo e, como tal, governável”. O livro faz parte da série de obras na qual ele pensa o homo sacer, figura que Agamben, no seu método arqueológico, resgata do direito romano. Homo sacer é aquele que pode ser morto sem que sua morte configure um assassinato.

— O caso mais paradigmático de homo sacer dos últimos tempos é o do brasileiro Jean Charles, morto no metrô de Londres, pela polícia inglesa. Há inúmeros outros, como o do morador alvejado pela polícia do Rio enquanto empunhava uma furadeira elétrica em sua casa, e agora o caso de Amarildo, cujo destino ainda permanece um enigma — argumenta Cláudio Oliveira.

Para a professora de Filosofia Georgia Amitrano (UFU), Agamben também permite pensar um paradoxo da política atual no momento brasileiro. Trata-se do estado de exceção — título de um dos volumes de “Homo sacer” —, cuja contradição é criar na lei a possibilidade de suspensão da lei. Como exemplo, Georgia cita o decreto estadual que criou a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV) — modificado pelo governo depois de críticas sobre trechos supostamente inconstitucionais.

— Agamben menciona as prisões de Guantánamo, mas podemos pensar que, com o decreto, o governo do estado se vale de um dispositivo legal para suspender a lei — explica ela, cuja tese de doutorado foi sobre Hannah Arendt, uma das autoras que inspirou o pensamento político de Agamben.

Outro exemplo dessa lei que suspende a lei quem cita é Edson Telles, professor de filosofia política da Unifesp, também um leitor de Agamben e Arendt e organizador de “O que resta da ditadura” (Boitempo Editorial). Para ele, a Lei Geral da Copa, que institui regras específicas, promove uma suspensão das leis ordinárias como a que o país vivenciou durante a Copa das Confederações:

— Em torno dos estádios, os direitos de cidadania a livre circulação e manifestação foram suspensas, instituindo-se um pequeno território, dentro do Estado nacional regido pela Constituição brasileira, no qual cada um dos indivíduos que lá se encontrava devia submeter-se a um regime policial militar. A característica perigosa e original deste estado de exceção é que ele ocorre, diferentemente de uma ditadura, com a autorização dos poderes instituídos. Ao legitimar estes pequenos momentos de exceção, como os vistos durante a repressão aos movimentos sociais, o Estado democrático permite a existência de uma bolha autoritária dentro de si.

Dele discorda o professor de Filosofia Marcos Nobre (Unicamp/Cebrap), autor do recém-lançado “Choque de democracia — Razões da revolta” (Companhia das Letras), para quem, embora as exigências da Fifa sejam “abusivas e inaceitáveis”, não podem ser caracterizadas como estado de exceção.

— Nossa democracia é ainda muito pouco democrática. Mas é democracia — argumenta Nobre.

Num ponto, no entanto, todos concordam: o aparato policial ainda é o que resta da ditadura, e a repressão policial acabou sendo, para Nobre, a gota d’água.

— As pessoas se disseram algo como “não temos qualquer influência sobre o sistema político e, ainda por cima, mandam a polícia reprimir pessoas que estão protestando contra o preço abusivo e a péssima qualidade do transporte público? é demais, inaceitável” — observa ele, para quem a luta pelo direito de manifestação está ligada diretamente ao combate do processo de blindagem do sistema político e ao protesto contra o baixíssimo grau de democratização da instituição policial.

Condições que são, do ponto de vista de Telles, legado da ditadura militar brasileira e da militarização das polícias:

— As polícias foram organizadas para combater o imaginário inimigo interno ao invés de fazer a segurança pública. Fruto desta doutrina instituída pela ditadura, temos hoje pelo menos dois efeitos: de um lado, as polícias não têm competência para a realização de um trabalho preventivo de segurança pública, atuando sempre com atraso e dentro de uma lógica repressiva e destruidora; por outro lado, mesmo após a democratização, esta polícia manteve a interpretação de que o opositor ou militante de movimentos sociais é um dos principais alvos de sua ação.

Neste ponto, Cláudio Oliveira acredita que se pode retomar as observações de Agamben, autor que, ao falar sobre a China, chamou atenção para o que o tradutor também observa na situação brasileira: a violência, aparentemente desproporcional, da reação do Estado.

— Agamben entende essa violência como o reconhecimento de que o grande alvo das manifestações não era essa ou aquela reivindicação. As manifestações do Rio nos mostram que nem é mais preciso que uma autoridade declare oficialmente o estado de exceção, cada policial se encarrega ele mesmo de declará-lo em suas ações cotidianas. Diante dele todos nos tornamos vida nua, cada um de nós como um homo sacer.

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Entre a política e a vida nua, resenha de “O aberto”

Entrevista com Claudio Oliveira

Construindo Derrida

Publicado no Valor, caderno EU&Fim de semana, em 01/06/13

Judeu sem ser judeu, porque a perseguição nazista obrigou a família a esconder as origens judaicas. Francês sem ser francês, porque nasceu em uma colônia que depois abriria guerra contra a França. Filósofo sem ser filósofo, inúmeras vezes criticado e rejeitado por não seguir as regras da pesquisa filosófica. De esquerda sem ser marxista, o que muitas vezes lhe rendeu desconfianças políticas. É desse estranho lugar sem ser lugar que fala “Derrida” (ed. Civilização Brasileira; trad. André Telles; 742 págs.; R$ 79,90), a biografia do pensador franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004) escrita pelo também filósofo Benoît Peeters, de 56 anos. O autor do livro conta como Jackie Élie Derrida, nascido em um subúrbio da Argélia, quarto filho de uma família modesta de magrebinos, se transformou no pensador Jacques Derrida, autor de uma obra filosófica imensa, de outros tantos conflitos com seus contemporâneos franceses, e de um reconhecimento internacional que incluiu sólida carreira acadêmica nos Estados Unidos.

Se, como argumenta o psicanalista francês Gérard Wajcman, o século XX é o século dos objetos, e o melhor objeto que representa o século XX é a ruína, o livro mostra como Derrida foi um dos pensadores mais importantes do século das ruínas por ter proposto uma experiência filosófica a partir da desconstrução – que virou moda em uma interpretação frívola e superficial -, tantas vezes confundida com destruição e motivo de conflitos com contemporâneos como Michel Foucault (1926-1984) ou com mestres como Jacques Lacan (1901-1981).

Resultado de dois anos de pesquisas e entrevistas, Peeters teve acesso aos arquivos de Derrida na França e nos EUA (o filósofo guardou obsessivamente tudo o que fez, as cartas que escreveu, e foi arquivista de sua obra) e situa a vida e produção do filósofo como parte de um tempo particularmente rico do pensamento francês. “Não são elementos filosóficos, mas também não são elementos estranhos à filosofia. É um jogo entre o que está dentro e o que está fora da obra”, diz Peeters.

Seu maior desafio foi escrever de um ponto de vista que não fosse o de discípulo, filósofo ou amigo, embora tenha conhecido Derrida e o admirado. “Quis escrever um livro que não fosse reservado apenas aos que já conhecem a obra de Derrida, mas que também servisse para mostrar a grande ressonância da obra desse filósofo, considerado tão difícil de ler”, afirma Peeters na entrevista a seguir.

O senhor escreveu uma biografia de Derrida como uma tentativa de dar um sentido lógico e cronológico ao pensamento do filósofo?

Como atribuímos a ele a palavra “desconstrução”, é paradoxal querer construí-lo. Mas tentei mostrar como ele se construiu como filósofo, como indivíduo, sua trajetória e também seu contexto, a história de suas ideias, os outros pensadores em torno dele, além dos fatos históricos, como a guerra da Argélia, o pós-colonialismo, os acontecimentos de Maio de 68, o 11 de Setembro – que tiveram forte influência sobre seu pensamento. Derrida não aceitaria a ideia de que a vida explica a obra, mas penso que aceitaria a ideia de que a vida tem uma relação estranha e múltipla com a obra. Derrida foi um filósofo que pensou sobre a autobiografia, por acreditar na importância da singularidade de um filósofo. Não era um filósofo do neutro, do impessoal, da humanidade em geral, mas um filósofo da diferença, da singularidade, e que conferiu um lugar especial à experiência individual. Sua biografia – a Argélia da sua infância, o judaísmo, sua carreira internacional – me pareceu interessante de ser recontada.

O senhor apresenta um jovem Derrida inseguro, tímido, que não corresponde ao grande filósofo que veio a se tornar depois.

Antes da publicação de seu primeiro livro ["Introdução à Origem da Geometria de Husserl"], Derrida não se parece em nada com a ideia que a maioria das pessoas têm dele. O primeiro Derrida é angustiado, carente de autoconfiança, talvez por causa de sua origem argelina, de sua expulsão da escola, aos 12 anos, durante a Segunda Guerra. Inseguro porque só saiu da Argélia pela primeira vez aos 19 anos, quando foi para Paris, onde se sente um pouco perdido, temeroso em relação ao concurso para a Escola Normal Superior. Nesse período, seu temperamento é melancólico e ele alimenta dúvidas sobre sua capacidade de escrever. Derrida só se liberta dessa dificuldade depois que seu primeiro livro é bem recebido e quando surgem os pedidos de artigo e de conferências. A partir daí, Derrida agiu sempre como um filósofo de circunstâncias, de situação, que respondia às demandas. Ele construiu uma obra a partir disso, mas não se permitia escrever sozinho. Derrida tinha necessidade de responder ao outro, por isso escreve sobre hospitalidade, com hospitalidade.

Essas angústias iniciais orientam os temas de sua obra? E os conflitos com seus pares?

Derrida é um filósofo do seu tempo, mas também era intempestivo, como diria Nietzsche, que buscava agir com liberdade, a partir dos seus temas, e não se limitava a obedecer ao pensamento dominante. A França daquele momento é um período brilhante, com pensadores como Michel Foucault, Roland Barthes, Jacques Lacan, Louis Althusser, Emmanuel Levinas, Gilles Deleuze e muitos outros. Ele viveu em uma época muito rica. Dois de seus colegas de classe eram Pierre Bourdieu e Michel Serres. É nesse ambiente que vai procurar seu lugar, seu caminho singular. Nos primeiros tempos, Derrida tem dificuldades com as instituições, com a tradição filosófica, e faz experiências que não são bem compreendidas, como os livros “Glas” e “Cartão-Postal” [ed. Civilização Brasileira], ambos diferentes da tradição filosófica. Só ao fim da vida ele se permitiu falar de temas como hospitalidade, o segredo, o perdão, o testemunho e a pena de morte, que já estavam no coração de sua obra. Os temas subjacentes do seu pensamento se tornam explícitos nos anos posteriores, também porque sua notoriedade o permite ser ele mesmo, afirmar suas preocupações.

É nesse momento que o tema da hospitalidade ganha destaque no seu pensamento?

A hospitalidade é uma das questões mais importantes de seu pensamento na medida em que ele – judeu, argelino, excluído – solicitou hospitalidade e não a recebeu, ou a recebeu de forma difícil. Ele pensa a hospitalidade a partir do lugar de quem bate à porta e não está seguro de que será atendido. É por isso que, ao fim da vida, ele se engaja na causa dos “sans-papiers” [sem-papéis], que tem relação com seus primeiros trabalhos sobre o lugar e a função do texto e da escrita. Derrida é engajado, mas tenta ligar suas intervenções públicas aos temas que estão no coração do seu pensamento. É um filósofo que busca uma forma nova de intervir no debate público. Ele não esquece a filosofia em prol da atuação política.

O senhor pode dar um exemplo desse tipo de engajamento?

No seu apoio a Nelson Mandela, por exemplo, Derrida se empenha em mostrar como ele é um grande jurista e como seu pensamento sobre o direito é mais forte do que o pensamento dos dirigentes da África do Sul – o que indica a possibilidade de ele vir a se tornar um grande líder político. Ele diz que se deveria, sim, defender Mandela, mas sobretudo se deveria ler Mandela (não diz apenas que é preciso libertá-lo). Da mesma forma, o seminário sobre a pena de morte é também uma releitura da tradição filosófica sobre a pena de morte. Derrida desconstroi essa tradição. A imagem pública da filosofia de Derrida é de uma filosofia longe do mundo, afastada, distante, reservada apenas aos iniciados. O que tentei fazer no livro foi mostrar que seu pensamento é profundamente inscrito na turbulência do século e pode ser lido por todos aqueles que quiserem discutir as questões sobre as quais trabalhou.

Derrida foi um personagem muito turbulento e alguns de seus conflitos ficaram famosos. Quais mais o marcaram?

Quando se diz que Derrida e Foucault tiveram um conflito, parece que eles nunca se entenderam. Na verdade, em 1963, quando Derrida, de forma muito tímida, perguntou a Foucault se poderia dedicar uma conferência à “História da Loucura”, Foucault não apenas aceitou como ficou feliz. Foucault, que era cinco anos mais velho que Derrida, começava a dar aulas e ficou contente de ter um jovem filósofo escrevendo sobre ele. Nesse primeiro momento, escreveu uma carta a Derrida, dizendo: “Você leu Descartes melhor do que eu”. Alguns anos depois, Foucault e Derrida se tornaram iguais, do ponto de vista institucional, e rivais filosóficos. Foi só a partir do momento em que se tornou famoso que Foucault rejeitou a crítica de Derrida. O interessante nesse caso é a temporalidade. O mesmo ocorre em relação a Lacan, que se considera um mestre, já que é 29 anos mais velho. Quando se conheceram, entre 1963 e 1965, Lacan o achava notável e percebeu que Derrida seria um bom discípulo. Mas Derrida, embora estivesse muito interessado em Lacan, não pretendia tornar-se um discípulo. Quando Derrida escreveu “O Carteiro da Verdade”, em 1975, o fez de forma independente. Não é um texto assim tão crítico a Lacan, mas também não é reverencial, admirativo e obediente. É um texto que diz: “Podemos trabalhar sobre o texto de Lacan”. O psicanalista não suportou essa abordagem e a relação entre os dois nunca funcionou. Mas da parte de Derrida sempre houve, desde o início, um grande respeito por Lacan.

Esses conflitos foram importantes no desenvolvimento da obra de Derrida?

Sim, se considerarmos que o campo filosófico não é um lugar neutro, no qual todos os filósofos avançam juntos, lado a lado, em direção à sabedoria e à verdade. A filosofia é um lugar de combate, de poder, é um campo de guerra. Mas esse combate não é estéril. Quando dois pensadores se confrontam, pode surgir alguma coisa de novo. Um pensamento se constrói contra outro. Nessa cena filosófica, Derrida foi por vezes vítima, por vezes combatente.

O senhor acredita que grande parte dos conflitos se dá por uma nunca esclarecida confusão entre desconstrução e destruição?

Derrida sempre disse que só se debruçou sobre textos que amava. Nesse sentido, o gesto da desconstrução é um gesto de amor, embora muitos ainda pensem que desconstruir um autor é mostrar que aquele autor não tem bases sólidas ou é um reacionário. No fim de sua vida, Derrida definiu a desconstrução como uma afirmação, mas é uma afirmação que toma o pensamento do outro para levá-lo adiante, para levá-lo a sério. Essa é a abordagem criativa do pensamento de Derrida. Para seus contemporâneos, no entanto, não foi fácil. Conforme Derrida foi se tornando um filósofo famoso, que ganhava espaço na cena acadêmica dos EUA, essas desconstruções muitas vezes se confundiam com críticas ou eram mal recebidas. Não se trata de dividir os filósofos entre amigos e inimigos de Derrida, mas de compreender o interior de cada um dos conflitos como parte das disputas entre amigos, mestres, discípulos, alunos, disputas que também influenciam a recepção do pensamento dele.

Uma das características de Derrida que incomodava seus pares é o fato de que não respeitava fronteiras, lia muitos autores, tinha como particularidade não se fechar, ocupava espaço já ocupado por outros. Isso contribuiu para os conflitos?

Os filósofos são, em geral, especializados em filosofia antiga, medieval, lógica, moderna. Derrida recusava esse sistema em favor de uma abertura extraordinária. Lia de Artaud a Marx, de Maurice Blanchot a Freud, de Platão a Hegel, de James Joyce a Helene Cixous, em uma amplitude que não estabelecia barreiras ou limites entre o que pode ou não pode ser lido na filosofia. No início, quando ele se debruçava sobre Husserl e sobre a fenomenologia, sua filosofia ainda era muito técnica, mas pouco a pouco ele ampliou sua atuação. O pensamento de Derrida se aventurava cada vez mais, se tornava mais lírico. Mas esse movimento aberto também acentuava os atritos, porque ele não se continham nem ao campo filosófico nem ao campo francês. Muito rapidamente o território da desconstrução se ampliou também geograficamente, quando Derrida se estabeleceu nos EUA.

Foram esses atritos que fizeram dele um autor mais lido nos EUA do que na França?

A rejeição começou muito cedo na França, antes mesmo de que Derrida conhecesse o sucesso nos EUA. Quando ele se tornou famoso nos EUA a rejeição aumentou, aí já por inveja. Se ele partiu muitas vezes para os EUA foi exatamente por não ser bem-aceito na França. Ao longo da vida, Derrida se representou como uma vítima, um mal-amado, um rejeitado, um marginal. Essa representação interior depois ficou deslocada da glória e do reconhecimento internacional de seus escritos. Mas fundamentalmente sua relação com o mundo e com os outros permaneceu marcada por essa representação de vítima. Objetivamente, a realidade não era mais essa a partir da metade dos anos 1970.

E qual seria a grande contribuição do seu pensamento ao século XXI?

Derrida pode ser lido na filosofia política ou na filosofia moral como uma resposta de um certo fracasso do marxismo e das ideologias tradicionais, e nesse sentido acredito em um grande futuro para esse pensamento. Mas isso supõe muito trabalho, não de repetição nem de imitação, mas um trabalho de ir além de Derrida. É preciso que os estudos sobre Derrida se libertem do “derridismo”, o que pode ser mortal para sua obra. Da mesma forma, a homenagem também é apenas mórbida, e não ajudará a manter seu pensamento vivo. Em 2014, quando completam-se dez anos de sua morte, será um bom momento para virar a página do luto e abrir uma etapa de leitura crítica.

Como é a recepção e o reconhecimento do pensamento de Derrida na França hoje?

Um fator importante em relação à leitura de Derrida é a publicação de sua obra póstuma. Começam a ser publicados os seminários de Derrida, que vão nos trazer muitas surpresas sobre temas como hospitalidade, animalidade, pena de morte, e vai nos permitir conhecer aos poucos a oralidade de Derrida, mais acessível do que seus textos. Nesses cursos, ele fala de autores sobre os quais não escreveu, ou de filósofos pouco presentes em suas obras publicadas. Penso que esta será uma etapa determinante da recepção de seu pensamento. Além disso, acho que a América Latina e a Ásia serão dois polos fundamentais na continuação da recepção da obra de Derrida. A biografia está sendo traduzida em países como Argentina, Brasil, Chile, Coreia do Sul, Japão e China, o que pode indicar que o interesse por Derrida se deslocou. Atualmente, o que se deve desejar é que essas novas leituras encontrem uma forma não reverencial de se aproximar de sua obra, numa abordagem mais livre, para reutilizá-lo como Derrida também reutilizou os textos clássicos. A moda vai passar, mas aos poucos, ele também se tornará um clássico.

Os múltiplos usos de Lacan

Publicado no caderno Prosa e Verso, sábado, 13 de outubro

O que pode haver em comum entre o filósofo francês Alain Badiou, a feminista norte-americana Judith Butler, o pensador pop Slavoj Zizek, e a jurista Drucila Cornell? O interesse pelo pensamento do psicanalista francês Jacques Lacan (1901/1981), cada vez mais lido não apenas como um psicanalista que, a partir da Conferência de Roma, em 1950, se dedicou a revigorar o pensamento de Freud, mas também como um teórico social capaz de antecipar algumas das questões do século XXI. O crescente interesse por Lacan para além das escolas de psicanálise se dá principalmente nos departamentos de Filosofia e pode ser percebido no lançamento de três livros: “Estilo e verdade em Jacques Lacan” (Autêntica), do professor da UFOP, Gilson Iannini, “Grande Hotel Abismo” (Martins Fontes), do professor da USP, Vladimir Safaltle, e “Lacan passado presente” (Difel), de Alain Badiou e Élisabeth Roudinesco, relatos pessoais da convivência com o pensador francês.

Iannini e Safatle integram, com professores brasileiros como Claudio Oliveira (UFF) e Antonio Teixeira (UFMG), a Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia, associação de filósofos e psicanalistas interessados em discutir as repercussões filosóficas da psicanálise e seus pressupostos filosóficos. Reúne pesquisadores ligados à universidade na Europa, nos EUA, em Israel e no Japão, e promove encontros internacionais a cada dois anos. O próximo acontece em novembro, no Chile, e é um dos indicadores do crescente interesse pelos estudos de Lacan na filosofia, voltada para pensar as duas máximas que marcariam a obra do psicanalista.

“Há verdade” e “não há verdade da verdade” são os dois axiomas sobre os quais Iannini se debruçou para escrever “Estilo e verdade em Jacques Lacan”. Para ele, entender Lacan é entender essa dupla exigência, desse limite tênue.

- Caso contrário, a tentação de representá-lo como um mestre da verdade, uma espécie de profeta capaz de ‘antecipar’ o que está acontecendo agora ou, por outro lado, como um impostor pós-moderno é muito grande. Mesmo entre seus seguidores – argumenta Iannini, cujo livro aponta uma leitura de Lacan dentro desta articulação entre psicanálise e filosofia.

- Lacan foi certamente o psicanalista que tomou para si a tarefa de responder à pergunta acerca das repercussões do acontecimento psicanálise para a razão e suas estruturas. Foi assim que ele cunhou o provocativo sintagma ‘a razão desde Freud’. Isso não faz dele um filósofo. Seu campo de atuação continua sendo a psicanálise, mas passa, de maneira instigante e produtiva, pela filosofia – diz.

Uma medida do interesse por Lacan na Filosofia está na afirmação de Badiou que “nenhum filósofo contemporâneo pode ser considerado importante se não se confrontou com a interpretação lacaniana da filosofia”. E, numa provocação aos psicanalistas, completa: “A psicanálise é muito séria para ser deixada na mão de psicanalistas”, numa boutade que indica também a rixa entre os estudiosos de Lacan na filosofia e na clínica psicanalítica. Avesso ao academicismo filosófico e se mantendo na clínica psicanalítica como lugar de resistência, Lacan vem se tornando um autor multidisciplinar. Como lembra Iannini, Lacan é lido nos estudos literários e de gênero e tratou de temas que interessam à psicologia, psicanálise, filosofia, linguística, estudos feministas, direito, educação, religião.

- Lacan tratou, com originalidade e rigor, temas como a feminilidade, a sexualidade, mas também a verdade, a subjetividade, a linguagem. Fez incursões na lógica, na poesia, na epistemologia, na religião. Os resultados de tantas incursões é, naturalmente, desigual – reconhece Iannini.

Autor de uma obra vasta, mas também de muitas histórias curiosas a seu respeito – o psicanalista deu origem a termos como “lacanagem” ou “lacanês”, este último uma referência ao caráter hermético de seus textos –, o pensamento de Lacan mantém uma potência crítica que, na avaliação de Iannini, “deriva de uma estratégia de formalização do campo conceitual que chega à ideia de não-todo”. Depois de Lacan, Iannini acredita que a filosofia pode interrogar “seu desejo mortífero pela totalidade e pelo absoluto, sem desorientar-se no pensamento”. Lacan forneceria, assim, instrumentos para pensar uma lógica da incompletude, beneficiando a filosofia contemporânea com seu trabalho.

- Nem que seja para economizar algumas de suas pretensões descabidas, como a discussão da essência da verdade ou sua fundamentação, do sentido do sentido, assim como para afastar algumas perspectivas obsoletas, como as ideias de uma subjetividade fundada na transparência da consciência e da vontade, ou mesmo, certas ideias da filosofia da mente, calcadas em uma psicologia cognitiva cujos compromissos ideológicos com a hipóstase de certas formas de vida não pode ser escondida – , conclui Iannini.

Todas estas leituras em tantas áreas contrastam, no entanto, com a percepção de que Lacan foi um pensador solitário no século XX, hipótese que Iannini defende no livro. Seu argumento é que, na filosofia do século XX, aqueles que questionaram a possibilidade de fundamentação da verdade acabaram abandonando a própria ideia de verdade. Por outro lado, aqueles que mantiveram a centralidade da verdade não abriram mão de fundá-la em alguma instância metalinguística.

- Lacan é um solitário, que aceita o desafio perspectivista de Nietzsche sem, no entanto, abandonar a centralidade da verdade – diz Iannini.

Para ele, Lacan inscreveu no discurso analítico o que responde ao quebra-cabeça que deixou a filosofia do pós-guerra numa situação embaraçosa.

- É como diz Gérard Wajcman, a filosofia ficou sem saber como fazer o impensável entrar no pensamento, o irrepresentável entrar na representação, a ausência entrar na presença. Eis uma lição a aprender com Lacan: como sair do embaraço.

Entrevista com Gilson Iannini: “Lacan ensina a filosofia a sair do embaraço sobre a verdade”

Autor de “Estilo e verdade em Lacan” (Autêntica), coordenador da coleção Filô na mesma editora, professor de Filosofia na UFOP, Gilson Iannin é um dos integrantes da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia, que promove encontro internacional em novembro, no Chile. Nesta entrevista, ele fala da importância da obra de Lacan, sua contribuição para a filosofia e para outros campos de saber, nos quais cresce o interesse pelo seu pensamento.

O que caracteriza o crescente interesse da filosofia pela teoria psicanalítica? Lacan poderia ser listado como um dos grandes filósofos do século XX?

Gilson Iannini - Merleau-Ponty costumava dizer que só se faz filosofia da não-filosofia. Foi assim entre os gregos, que produziam conceitos filosóficos a fim de tornar pensável o acontecimento que era a pólis, a vida política; foi assim com os primeiros modernos, que procuravam dar um sentido filosófico ao acontecimento ciência e às formas de conhecimento que nela surgiam; foi assim com a escola de Frankfurt, com Adorno em particular, que precisava compreender como o fenômeno do holocausto foi possível justamente numa das sociedades em que o progresso técnico-científico era mais avançado; para citar apenas alguns casos emblemáticos, entre tantos outros. De certo modo, o mesmo ocorre com a psicanálise. Freud é um acontecimento, um acontecimento para o pensamento. Um acontecimento que não deixa intactas uma série de problemas e conceitos herdados da modernidade, como a vinculação entre subjetividade e consciência, entre responsabilidade moral e autonomia da vontade, entre o universal do conceito e o caso singular. Lacan tira consequências filosóficas que a prudência epistemológica de Freud não o permitia tirar.

O que a teoria lacaniana pode ensinar à filosofia?

Gilson Iannini – Em primeiro lugar, há o que a filosofia ensina à psicanálise, basicamente o rigor na delimitação do objeto, a atenção à estrutura conceitual, o cuidado na explicitação dos pressupostos epistemológicos tacitamente admitidos, as consequências éticas de certas posições clínicas, a incidência política de determinada práxis, etc. Sem esse desvio pela filosofia, Lacan não poderia falar de uma ética da psicanálise que não fosse mera reprodução de etiquetas e padrões normativos de conduta, por exemplo. Mas o que Lacan pode ensinar à filosofia relaciona-se, primeiramente, com a idéia de que uma crítica da razão, da verdade e da subjetividade não implica o abandono dessas categorias em favor de algum relativismo ou pragmatismo. Com Lacan podemos interrogar, por exemplo, o pressuposto jurídico herdado do Iluminismo de que a responsabilidade moral supõe a autonomia da vontade, e podemos interrogar também a idéia de que uma concepção determinista implicaria na impossibilidade de responsabilização dos agentes. Como diz Gérard Wajcman, Lacan inscreveu no discurso analítico aquilo que responde ao quebra-cabeça que deixou a filosofia do pós-guerra numa situação embaraçosa quanto a saber como fazer o impensável entrar no pensamento, o irrepresentável entrar na representação, a ausência entrar na presença. Eis uma lição a aprender com Lacan: como sair do embaraço.

No seu livro, o senhor contabiliza, nos Escritos, uma maioria de citações a Hegel. Se fizéssemos o caminho contrário e quiséssemos contabilizar na filosofia contemporânea quem mais cita Lacan, quem encontraríamos?

Gilson Iannini – Entre os filósofos vivos, destacam-se, certamente, Alain Badiou, Slavoj Zizek e Jean-Claude Milner. Vários outros autores, como Jean-Luc Nancy, Phillippe Lacoue-Labarthe, Didi-Huberman, Hal Foster, Jacques Ranciere também mantiveram ou mantém alguma relação, às vezes de distanciamento, com relação a Lacan. Mas mesmo à distância, ele permanece um marco. É preciso destacar também – e principalmente – aqueles que quase não se referem explicitamente a Lacan, mas que estão em profundo debate, muitas vezes polêmico com ele. Refiro-me aqui a autores como Foucault, Deleuze, Derrida e essa lista poderia ser estendida até nomes como Paul Ricoeur, Jean Hypollite e vários outros.

Seu livro é uma ampla discussão sobre o problema da verdade em Lacan e seu postulado de que “não há verdade da verdade”. Em dado momento, o senhor o situa, citando Badiou, como um solitário do século XX. O que caracteriza essa solidão? Ou dizendo de outro modo, o que diferencia esta postulação dos outros pensadores que, também no século XX, questionaram a existência da verdade da verdade?

Gilson Iannini – O que procuro examinar é como Lacan constrói seu pensamento em torno de dois axiomas, de dois limites aparentemente antagônicos: a tese de que “há verdade”, uma verdade que tem sempre efeitos no real, e a tese segundo a qual “não há verdade da verdade”, ou seja de que não existe metalinguagem capaz de fundar a verdade numa linguagem não ambígua. Entender Lacan é entender essa dupla exigência, esse limite tênue. Caso contrário, a tentação de representá-lo como um mestre da verdade, uma espécie de profeta capaz de “antecipar” o que está acontecendo agora ou, por outro lado, como um impostor pós-moderno é muito grande. Mesmo entre seus seguidores. A solidão de Lacan refere-se justamente a esta dupla exigência que descrevo no livro. Grosso modo, na filosofia do século XX, aqueles que questionaram a possibilidade de fundamentação da verdade, que retiraram da verdade seu caráter absoluto, acabaram abandonando a própria idéia de verdade, como certas correntes do descontrucionismo ou do neo-pragmatismo; por outro lado, aqueles que mantiveram a centralidade da verdade não abriram mão de fundá-la em alguma instância metalinguística, como fizeram a lógica formal, o positivismo-lógico e boa parte da filosofia analítica. Nisso, Lacan é um solitário, que aceita o desafio perspectivista de Nietzsche sem, no entanto, abandonar a centralidade da verdade.

Seu livro afirma que Lacan inaugura um novo capítulo da história da psicanálise “cujas ressonâncias filosóficas não se esgotaram”. O senhor poderia mencionar algum legado de Lacan para o século 21? Ou, como explicar o crescente interesse de diversas correntes de pensamento por Lacan?

Gilson Iannini – A recepção do pensamento de Lacan é desigual. Se, rapidamente, muitos perceberam a relevância filosófica de seus conceitos e de sua prática, há evidentemente, aqueles que preferem manter Lacan fechado dentro das instituições e há aqueles que tentam tirar consequências em outras disciplinas. Quanto às ressonâncias filosóficas, elas são múltiplas: Badiou tira conseqüências do pensamento de Lacan para uma nova teoria do sujeito; Zizek pensa uma renovação do pensamento político de esquerda; Milner, procurou tirar consequências para a linguística e a filosofia da linguagem; Alenka Zupan?i?, para a Ética; Hal Foster e François Regnault para a estética. No Brasil, temos, por exemplo, o caso de Bento Prado Jr, que desenvolveu uma teoria do sujeito, que constrói sua abordagem fazendo economia de pressupostos como identidade e ipseidade. Lacan não é sua principal referência, temos antes recursos a Bergson, Deleuze e Wittgenstein. Mas seu recurso à leitura lacaniana do sujeito é fundamental. Temos, mais recentemente, Vladimir Safatle, que está construindo uma vigorosa teoria do reconhecimento calcada numa leitura da psicanálise lacaniana com a dialética negativa adorniana. Antônio Teixeira publicou um estudo relevante sobre o topos ético da psicanálise. No meu livro, procuro discutir uma teoria contemporânea da verdade a partir de Lacan, relacionando esta teoria à linguagem e ao sujeito. Tania Rivera tem mostrado a relevância de Lacan para a arte contemporânea. Minha suspeita é que os estudos relativos à estética e à política são os que assistem a um maior crescimento no momento.

A filosofia está viva

Publicado no Valor Econômico, caderno EU&Fim de semana

“Há um século a filosofia está morrendo. No entanto, ela não consegue morrer porque sua tarefa não foi cumprida.” O diagnóstico foi feito pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk nos anos 1980, quando a filosofia parecia ter perdido a importância dos anos 1960 e a rebeldia dos anos 1970. Nascido em 1947, Sloterdijk não integrou a geração glamourosa nem a rebelde e apontou o fim da filosofia em “Crítica da Razão Cínica”, 720 páginas que passam em revista a história do pensamento ocidental. Logo depois de lançado, em 1983, o calhamaço vendeu 150 mil exemplares, tornando-se o livro de filosofia mais vendido na Alemanha desde a Segunda Guerra e provando que a filosofia estava viva e passava bem, obrigada. São essas 720 páginas que a Estação Liberdade publica no Brasil, depois de um investimento de R$ 50 mil e cinco anos de trabalho de uma equipe de cinco professores, estudiosos brasileiros da obra do autor. A empreitada contou com o apoio do Instituto Goethe para a publicação de dois mil exemplares a R$ 96,00.

Coordenados por Marco Antonio Casanova, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e importante tradutor da obra de Heidegger no país, os outros quatro integrantes da equipe de tradutores já estudavam a obra de Sloterdijk na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e se debruçaram sobre o texto em um trabalho de comparação com as outras traduções, como a espanhola e a francesa.

Para quem pretendia concordar com Sloterdijk e apostar no fim da filosofia, a boa notícia é o crescimento, no mercado brasileiro, de títulos de grandes filósofos vivos, resultado do investimento em traduções de qualidade. Lançado na Alemanha por ocasião do bicentenário de “Crítica da Razão Pura” – clássico de Immanuel Kant que seria ao mesmo tempo o auge e o início do suposto fim da filosofia -, “Crítica da Razão Cínica” é o primeiro de uma lista de 34 livros escritos por Sloterdijk, dos quais 6 já estavam traduzidos no Brasil pela Estação Liberdade. A aposta no autor começou por títulos menores, mas só em tamanho. O primeiro a chamar a atenção dos editores foi “Regras para o Parque Humano – Uma Resposta à Carta de Heidegger sobre o Humanismo”, traduzido em 2000, apenas um ano depois da edição alemã, impulsionado pelo imenso debate que provocou entre Sloterdijk e o filósofo Jünger Habermas, com trocas de acusações mútuas que em muito se distanciaram de um debate filosófico.

Se foi a polêmica nas páginas dos jornais alemães que trouxe Sloterdijk para o Brasil, a amplitude de sua obra ajudou a consolidar o interesse nas traduções. Títulos como “O Desprezo das Massas”, debate sobre o que o autor chama de “luta cultural”, tem atraído pesquisadores na área de comunicação, e “Se a Europa Despertar”, na área de ciência política, ambos textos mais pontuais. O mesmo não se pode dizer dos três volumes da série “Esferas”, cada um com 800 páginas, cujos direitos autorais já foram comprados pela Estação Liberdade. “Nosso público-alvo são alunos e professores universitários da área de ciências humanas em geral, não apenas na filosofia”, diz um dos editores, Fabio Bonillo.

Álbum de figurinhas

Vem da Itália outro grande filósofo vivo: Giorgio Agamben, de quem “O Homem sem Conteúdo” acaba de chegar às prateleiras. Lançamento da Autêntica, com tradução do professor de filosofia Claudio Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), estudioso da obra do autor e coordenador da recém-criada série “FilôAgamben”, que integra a coleção “Filô”. Coordenada por outro professor de filosofia, Gilson Iannini, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a coleção “Filô” está subdividida em séries dedicadas a autores, como “FilôBenjamin” e “FilôEspinosa”, ou a temas, como “FilôMargens” e “FilôEstética”. “O Homem sem Conteúdo” é o primeiro livro de Agamben, publicado na Itália em 1970, e inaugura a série “FilôAgamben”, que já tem direitos autorais comprados, tradutores contratados e previsão de lançamentos para os próximos anos: “Ideia da Prosa”, “A Comunidade Que Vem”, “O Tempo Que Resta”, “Bartleby ou a Fórmula da Criação”, “Meios sem Fim”, “A Potência do Pensamento”.

Nascido em Roma em 1942, Agamben também é destes autores que provam a força da filosofia. O mercado brasileiro já dispõe de parte de suas obras traduzidas, com títulos lançados pela Editora UFMG e pela Boitempo Editorial. Um de seus grandes êxitos recentes, “O Que É o Contemporâneo”, é publicação da pequena Argos, editora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (SC), cuja aposta em títulos de peso se constata por títulos como “A Filosofia do Como Se”, do alemão Hans Vaihinger (edição de luxo, capa dura, 724 págs., R$ 79,00). Apoiada pelo Instituto Goethe, a tradução foi parte da pesquisa de doutorado em letras, defendido na UFF, do pesquisador Johannes Kretschmer.

“Estamos completando o álbum de figurinhas”, diz Claudio Oliveira. Agamben é um filósofo de grande produtividade e apenas 12 dos seus 29 livros estavam traduzidos no Brasil quando o professor carioca começou a trabalhar na tradução, há pouco mais de um ano. “Se é verdade que outras editoras importantes já publicaram Agamben, é também verdade que, em alguns anos, a Autêntica será referência no Brasil para sua obra, pois já negociamos os principais títulos dele”, argumenta Iannini, o coordenador da coleção “Filô”. Agamben não é o único filósofo contemporâneo que a Autêntica vai publicar. O catálogo da coleção inclui autores como Slavoj Zizek e Arthur Danto, além de filósofos contemporâneos, como o francês Gilles Deleuze, nome consagrado do pensamento francês do século XX.

O investimento da editora prevê o lançamento de 20 a 25 títulos por ano, o que equivale, em dinheiro, a R$ 500 mil, gastos em direitos autorais e em pagamento de tradutores. “A área de filosofia pede tradutores especializados, que conheçam a obra do autor”, afirma Oliveira. Fazem parte de uma edição bem-acabada as notas do tradutor e um posfácio em que ele comenta, situa e contextualiza a importância da obra. Também é indicação de qualidade da tradução a capacidade do tradutor de localizar, como fez Oliveira, as referências bibliográficas usadas pelo autor nas edições brasileiras das obras citadas, grande ajuda para brasileiros que estejam iniciando os estudos sobre Agamben.

“O mercado editorial ainda não se deu conta do potencial da área de filosofia”, acredita Oliveira, que vê nos investimentos da Autêntica os primeiros sinais de que, com a expansão do ensino de filosofia, a tendência é que esse campo de publicação continue crescendo. É o que anima outras coleções da editora, como “Ensino de Filosofia”, voltada para textos de reflexão sobre o que é ensinar filosofia, e “Estudos Foucaultianos”, já com nove títulos assinados por comentadores da obra do francês Michel Foucault. A edição bilíngue latim-português da “Ética” de Spinoza, trabalho do professor Tomaz Tadeu, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lançado em 2007, marcou os dez anos da editora e comprovou que investimentos em filosofia podem dar resultado: são 424 páginas em capa dura, a R$ 68,00, já na terceira edição.

A edição de grandes filósofos vivos e complexos corre em paralelo ao fenômeno de popularização da filosofia, seja por obras de introdução que inundam as prateleiras, seja por títulos de autoajuda, dos quais “Mais Platão e Menos Prozac” é o mais emblemático representante, seja por livros em que os próprios filósofos se dedicam a tornar acessível seu pensamento, facilitando as vendas. É o que está acontecendo, por exemplo, com o americano Michael J. Sandel. Proclamado pela editora Civilização Brasileira como o “filósofo político mais importante da atualidade”, o professor de Harvard lança sua segunda tradução: “O Que o Dinheiro não Compra”, que chega no rastro do sucesso de “Justiça – O Que É Fazer a Coisa Certa”, edição dos cursos que já levaram mais de 15 mil alunos à sala de aula.

Há outra linha rentável de traduções, a de autores que ganharam grande notoriedade na mídia, como o esloveno Slavoj Zizek. Suas obras interessam também pelo caráter ideológico. É como Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, justifica o investimento nos livros dele, dos quais 7 entre os 16 títulos já publicados estão traduzidos pela editora. O lado da obra de Zizek mais voltado para a psicanálise reúne outros cinco títulos editados pela carioca Jorge Zahar Editora. “É dos autores mais instigantes da atualidade, que contribuem de forma ampla para reconstruir um arcabouço teórico da esquerda no mundo”, diz Ivana.

O catálogo da Boitempo é ideologicamente orientado para autores de esquerda e privilegia pensadores como o húngaro István Mészáros e o francês Alain Badiou. Mesmo do italiano Agamben os títulos escolhidos (“Estado de Exceção”, “Profanações”, “O Que Resta de Auschwitz”, “O Reino e a Glória”) foram os dedicados diretamente a questões políticas. “São filósofos engajados, que despertam interesse não apenas na academia, mas também nos meios sindical e político”, reconhece.

Por ter identificado crescente interesse de alunos de graduação e até de ensino médio, a Boitempo se empenha em promover os autores nas universidades e se orgulha de lotar auditórios com os debates que organiza. Foi o que ocorreu quando o geógrafo inglês David Harvey esteve no Brasil, no início do ano, e reuniu multidões nas universidades para lançar “O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo”. A Boitempo já tem comprados os direitos de “A Companion to Marx’s Capital”, com previsão de lançamento para o ano que vem. Sucesso de público em sala de aula, na Universidade da Cidade de Nova York, e na internet, onde as aulas estão disponíveis em vídeo, o livro é uma coletânea de seus cursos sobre Marx. O crescente interesse nesse filósofo alemão do século XIX é só mais uma prova de que o diagnóstico de Sloterdijk pode estar certo: a filosofia está morrendo, mas não consegue morrer porque sua tarefa não foi cumprida.