contemporânea » Blog Archive » FLIP 2008: Inês Pedrosa, a eternidade e o desejo




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FLIP 2008: Inês Pedrosa, a eternidade e o desejo

Em “Fazes-me falta”, ela descreveu a morte de forma tão crível que um amigo disse que, terminada a leitura, ele já sabia como era morrer. Em “Eternidade e desejo”, a portuguesa Inês Pedrosa descreve de maneira tão precisa a experiência da cegueira que custa a crer que ela não tenha passado pelo que considera “a maior tragédia que pode acontecer a um escritor”. Quando pergunto a ela como conseguiu a proeza de descrever duas experiências tão impossíveis de ser compartilhadas, ela responde:

- Cegando e morrendo.

A facilidade com que Inês responde traduz a sua maior qualidade como escritora: a capacidade de abarcar a experiência humana em textos lapidados como jóias. “Fazes-me falta”, ela explica, foi escrito “num só jorro”, num ano em que ela perdeu cinco pessoas muito importantes na sua vida.

- Dediquei-me a ler sobre a morte, não para compreendê-la, mas para tentar obter algum consolo.

Já a história da produção de “Eternidade e desejo”, pontuado por trechos da obra de Padre Antonio Vieira, surgiu de um projeto encomendado. Anos atrás, Inês foi convidada a vir ao Brasil numa excursão que refaria o trajeto de Padre Antonio Vieira. Sua tarefa seria escrever um relato de viagem depois. Mas o livro “veio” e a personagem cega nasceu de um certo fastio de Inês, que passou 30 dias percorrendo em média cinco museus por dias. A tarefa de fazer o relato de viagem ela só cumpriu depois de terminar o romance e que resultou no livro “No coração do Brasil”, com ilustração de João Queiroz, artista plástico que fazia parte da excursão.

Do fastio por tantas imagens a ser absorvidas Inês inventou a personagem que é acometida por uma doença da qual decorre a cegueira, e que passa a depender de um grande amigo, Sebastião, para lhe relatar o mundo. Diz a personagem:

- Peço-te que olhes para o que fazem as pessoas felizes- são essas que preciso ver. Dizes-me que te peço demasiado, que a felicidade não se vê.

A felicidade de Inês de estar no Brasil, entre amigos – o livro é dedicado, entre outros amigos, ao seu primeiro editor brasileiro, Paulo Roberto Pires –, e de ser um dos grandes nomes da edição da FLIP deste ano é visível no brilho dos seus olhos muito azuis e na agenda lotada de compromissos e entrevistas. Entre tantas outras coisas, estará no centro do Roda-Viva que vai ao ar nesta segunda-feira, 7.

Amizade, a nova família

A mim, salta aos olhos que os dois romances sejam tecidos em torno de uma grande amizade não erótica entre um homem e uma mulher. Inês primeiro discorre sobre si mesma, contando que teve uma grande amizade com um homem que nunca passou pelo sexo ou pelo corpo.

- A amizade é uma variante muito específica do amor, e a transa mental também existe.

Só depois ela sai do particular para o geral e argumenta que, num mundo em que as famílias perderam importância relativa, as amizades são as nossas famílias escolhidas, capazes de nos dar suporte.

- Há um tabu maior em relação à amizade. Não dizemos que temos ciúmes de amigas, embora muitas vezes tenhamos. Ser traída por uma grande amiga pode ser pior do que ser traída por um namorado, argumenta.

Deponta, aí, o mais interessante em Inês: a capacidade de falar daquilo que não se fala. A literatura, diz ela, está repleta de histórias de amor romântico, mas a amizade tem sido pouco retratada.

- A amizade é um tema crucial na minha vida. Tenho amigos pelos quais atravessaria uma casa em chamas.

Feminista sem carteirinha

Prestes a completar 46 anos, Inês não é da geração desbravadora do que aqui se chama “a segunda onda do feminismo”, que surge a partir das reivindicações de igualdade e direito nos anos 1960. Mesmo assim – ou talvez exatamente por isso – seu discurso feminista é contundente.

Avessa a qualquer tipo de gueto, em que infelizmente muitas vezes o movimento feminista se coloca, Inês critica os congressos feministas em que se fala para convertidos, se exclui os homens e ainda se mantém o tom de vitimização. Lamenta que tenha acontecido em Portugal o mesmo que aconteceu aqui: as feministas foram ridicularizadas por sátiras machistas que as identificam com mulheres frustradas, feitas e mal-amadas.

Por isso, Inês detesta, com toda razão, as mulheres que se declaram “femininas, não feministas”.

- É um insulto a essas mulheres que fizeram tanto para que possamos nos emancipar.

O próximo passo, acredita ela, é fazer com que os homens se declararem feministas. De sua parte, já começou a campanha, falando do tema em todas as mesas de que participa. Foi assim em Parati, mas foi assim também em Portugal, quando perguntou a um político de esquerda se ele era feminista. Ouviu dele a resposta de que não poderia ser feminista porque era homem. Ao que Inês argumentou: então não pode ser anti-racista por não ser negro?

Touché.

Na sua primeira passagem pela FLIP, mas numa incontável viagem ao Brasil, Inês chega cinco anos depois do sucesso de “Fazes-me falta”, lançamento da Planeta em 2003. Agora em nova editora, a Alfaguarra, “Eternidade e desejo” é o seu quinto livro publicado no país e foi o mais vendido na Livraria da Vila, em Parati.




6 comentários para “FLIP 2008: Inês Pedrosa, a eternidade e o desejo”
  1. Homo Erectus:
    06-07-2008 - 11:14 am

    Pergunta a Inês Pedrosa se não está na hora de se criar um movimento chamado “masculinismo” para se contrapor aos excessos do feminismo e fazer face à feminilização crescente da sociedade. Sim, porque hoje em dia as feministas estão até querendo transformar os homens nas mães que elas não querem mais ser. Sendo uma pessoa de mente aberta como ela é, garanto que a Inês não se oporá à essa dialética dos opostos.

  2. Homo Erectus:
    06-07-2008 - 11:26 am

    O movimento feminista se caracteriza por “ondas”, cada uma delas mais chata do que a anterior. Numa época em que todas as portas estão abertas para as mulheres (se elas não entram em algumas é porque simplesmente não querem) e em que países importantes são governados por mulheres, ninguém agüenta mais esse eterno chororô feminista.

    Eis um livro que não apenas a Inês, mas todas as feminista deveriam ler:

    http://tinyurl.com/68j8xp

  3. Júnia:
    07-07-2008 - 11:55 am

    Vou correndo atrás dos livros da Inês Pedrosa, que ainda não conheço. Obrigada, Carla!

  4. Anderson:
    08-07-2008 - 11:37 am

    Ainda existe uma especie de tabu, ou mais uma descrença em relação a amizade entre homens e mulheres sem conotação sexual, principlamente quando ambos não tem compromisso com outras pessoas, é uma pena.

    Mas acho bom retificar que a amizade tem sido sim bem retrada, embora quase sempre seja aquela entre homens, e que surgem (ou se fortalecem) em meio a conflitos e dificuldades.

  5. Lilian Neves:
    11-11-2008 - 11:12 am

    A amizade e o sentimento de procura pela paixão e pelo encontro, são muito bem descritos pela autora nesse livro.
    Agora, sua descrição como personagem Clara na Bahia é surpreendente!

  6. Um aperto de mão, quem sabe um abraço – Agora com dazibao no meio:
    04-11-2009 - 7:44 pm

    [...] a Carla comentou o que a Inês disse, que “num mundo em que as famílias perderam importância relativa, as amizades são as nossas [...]

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