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Uma intelectual de primeira linha

A primeira vez que a entrevistei, fui imediatamente conquistada pela sua provocação: havia, dizia dra. Ruth Cardoso, um problema com a denominação “primeira-dama”:

- O primeira supõe a existência de outras, argumentava ela.

Discretamente, ela fez saber que não era correto chamá-la de “dona” Ruth. O “dona” poderia até ser tentativa de tratamento respeitoso, mas costumava ser usado por feirantes para tratar as “madames” e era inadequado. Ela, doutora em Antropologia, deveria ser chamada de Dra. Ruth. Tudo isso sem nenhum tipo de prepotência.

Protocolo aceito, dela se dizia sempre que era muito melhor do que marido. A frase a acompanhou nos oito anos em que esteve à frente da Comunidade Solidária e costumava ser repetida, nos bastidores, até mesmo por amigos do presidente FHC.

Tive o privilégio de entrevistá-la outras vezes. Trocaria todos os adjetivos de sobriedade, elegância ou discrição por inteligência. Um tipo de inteligência cada vez mais rara, porque capaz de defender idéias próprias ao invés de aderir a idéias que agradam.

Foi assim que criou seu próprio jeito de repensar o papel de primeira-dama, de refazer a política social do país, de propor um trabalho baseado em convicções políticas e pessoais. Foi também feminista a seu jeito, o que não era nada fácil para a sua geração e para o lugar que ocupou. Muitas vezes, o presidente FHC precisou justificar a ausência da “primeira-dama”, que só o acompanhava em compromissos oficiais quando sua presença fazia algum sentido.

Por tudo isso, morre única. Como ela mesma dizia, “primeira” supõe a existência de outras…




6 comentários para “Uma intelectual de primeira linha”
  1. Michelle Müller:
    25-06-2008 - 5:14 pm

    Realmente morreu única!
    Adorei teu texto, um dos mais bacanas que li sobre a Dr.ª Ruth, neste dia tão cheio de homenagens.
    Michelle

  2. Guilherme:
    25-06-2008 - 11:27 pm

    Engraçado o comentário dela sobre o “primeira” fazer parecer que existiam outras damas. No caso dela, como bem se sabe, existiu pelo menos uma outra, mãe do Thomás Schmidt Dutra, hoje com 17 anos.

    Como escrevi no meu blog, os obituários esqueceram de mencionar que ela aceitou resignada a traição e o filho fora do casamento que FHC teve.

  3. Carla:
    26-06-2008 - 9:55 am

    Guilherme, eu acho que ela aceitou em nome de um projeto político do qual ela foi parte importante. Isso não é resignação, é capacidade de ver as coisas de forma mais ampla.

  4. Anderson:
    26-06-2008 - 11:47 am

    Guilherme nisso ela não foi diferente de milhões de mulheres por esse pais afora.

    Na vida publica ela pelo menos tentou fazer alguma diferença e não viveu apenas a sombra do marido.

    Comparada a sua antecessora ja foi muito.

  5. Xracer:
    26-06-2008 - 2:32 pm

    Você me ajudou a pensar uma coisa: por ela, caminhamos da LBA (de Rosane Collor e Lucy Geisel) para o Ministério do Desenvolvimento Social. É ou não é uma baita evolução?

  6. Anderson:
    27-06-2008 - 11:38 am

    Tb acho Xracer.^^

    Espero que a evolução só continue.

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