A ingenuidade da Europa de Woody Allen


Quando, em 2005, “Match Point” chegou às telas de cinema, o que mais se leu sobre o filme de Woody Allen foram comentários sobre a opção por ambientar sua história na Inglaterra: grande parte do filme se passa em Londres, com detalhes nos campos ingleses. Tratava-se da primeira vez em que o diretor norte-americano tirava sua câmera de Nova York. É verdade que aquele roteiro poderia ter sido gravado em qualquer grande capital do mundo, mas tendo Londres como pano de fundo parecia soar como uma crítica não apenas à ética contemporânea, mas também e principalmente à decadência dos tradicionais valores da grande civilização europeia.

Com “Vicky, Cristina, Barcelona, em 2008 – um filme considerado menor por muitos de seus admiradores – Allen visita a Espanha e suas paixões. Novamente, trata-se de uma comédia de costumes que poderia acontecer em qualquer lugar, e ganha com o cenário espanhol apenas um toque a mais de humor.

Só a partir de Meia-noite em Paris (2011), o terceiro da safra de filmes europeus de Woody Allen, a história ganha ligação direta com a cidade em que acontece. Não haveria “Meia-noite…”se não fosse em Paris, e toda a genialidade da obra está na combinação entre a homenagem a cidade e a nostalgia de Allen, um diretor que sempre insiste em nos dizer que o passado era melhor.

No recém-lançado “Para Roma, com amor”, o que se vê é um elogio rasgado à cidade. A Roma de Allen é engraçada, como são engraçados os italianos, em geral, e os romanos, em particular, é leve, é histórica, é nostágica, claro – ou não seria um filme de Allen –, é linda e, porque não dizer, até romântica. Guardado um certo ceticismo, claro, ou também não seria Allen.

De novo, a história tem ligação direta com a cidade que lhe serve de cenário. Não está nas telas a Europa da zona do euro, da decadência econômica, da mestiçagem cultural que nas últimas décadas fez acirrar os discursos xenófobos. A Europa de Allen é mítica, idealizada, ingênua, como se o tempo tivesse parado de passar. Neste sentido, para além de todos os pequenos enredos que se desenvolvem, “Para Roma, com amor” é um elogio não apenas à cidade, mas sobretudo um olhar generoso sobre o berço da civilização greco-romana. Quase um “conheça antes que acabe”.

2 opiniões sobre “A ingenuidade da Europa de Woody Allen”

  1. Senti também uma ingenuidade na paris do Woody Allen, e em seus personagens do passado. DIvertida, fascinante, mas meio álbum de figurinhas, às vezes quase afundda no estereótipo. Não vi esse na Itália, carla, valia a pena discorrer um pouco mais sobre essa ingenuidade do moço… (-;

  2. Allen homenageia Fellini e, sobretudo, o cinema o italiano de meados da década de 1940 até os anos de 1970. Auge do cinema italiano.

    Fellini, Dino Risi, Ettore Scolla, dentre muitos outros diretores italianos, nunca foram realistas no seu retrato da Itália ou italianos. Havia sempre uma deliciosa auto ironia com os italianos. Isso mesmo no auge do neorrealismo italiano.

    Em “Aquele que sabe viver”, de Dino Risi, Vitorio Gasmman faz um malandro e bon vivant que vai ensinar, a um jovem Jean Louis Trintignant, as coisas boas da vida. Embora Gasmman seja um malandro – perdeu a esposa e a filha, não tem emprego e está sempre duro – ele nunca é apresentado como perdedor e, na troca de experiências como o sisudo Trintignant,se desenvolve uma grande amizade.

    Etoore Scolla, por outro lado, em “Feios, sujos e malvados”, faz um retrato mais cruel da Itália sem, no entanto, perder o bom humor e a auto ironia. O mesmo ocorre com Mario Moniccelli em “Parente é serpente” num retrato bem humorado da família.

    Abs.

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