Ficar, namorar, casar: livre-se dos verbos

Durante muitos anos, escrevi artigos, crônicas, histórias e posts sobre as relações afetivas contemporâneas. Daí o nome do site, aliás: contemporânea tem a ver com este primeiro impulso inicial, ainda na finada revista NoMínimo. A partir de um certo momento, não me pareceu que eu tivesse mais nada a dizer sobre o assunto, e como não pretendia me tornar nem especialista, nem conselheira, nem autora de um livro de auto-ajuda, fui mudando de assunto. Hoje me deu vontade de retomar uma boa e velha discussão sobre as relações contemporâneas entre homens e mulheres (sim, estou propositalmente deixando de fora relações homossexuais, que já de início se inscrevem em algum tipo de registro transgressor do lugar-comum ou da norma).

Meu tema será o namoro. Não aquele namoro entre jovens que estão experimentando a sua primeira relação afetiva fora da família, mas o namoro entre adultos, em geral descasados, que estão experimentando sob o nome de “namoro” um relacionamento supostamente maduro.

Duas pessoas namoram, ensina o dicionário, quando estabelecem um “relacionamento amoroso em que a aproximação física e psíquica é fundada numa atração recíproca e aspira à continuidade”. Ou seja, como eu dizia na mesa do bar esta semana entre amigas, namorar tem a ver com a manutenção daquela relação numa perspectiva de tempo.

O que, argumentava eu ainda na mesa do bar, para espanto das minhas interlocutoras, só pode ser dar depois de algum tempo. Ou seja, quando duas pessoas começam uma relação afetiva elas ainda não namoram, porque ainda não podem saber do interesse em manter esta relação afetiva no tempo. A necessidade de nomear esta relação como namoro já tem a ver com o desejo – ou a ansiedade – de estabelecer um compromisso prévio que define, a priori, o que virá a ser aquilo que está começando.

Surge, aí, um novo problema. Namorar, também no dicionário, é também sinônimo de apaixonar-se. Os dois exemplos do Aurélio são elucidativos: “a beleza e a graça da jovem eram tais que o namoraram imediatamente” e “namorou-se dele e nunca mais pensou em outro”. Se namorar também pode ser se apaixonar, começa aí uma confusão, porque apaixonar-se supostamente não depende da manutenção de uma relação no tempo. Apaixonar-se pode ser arrebatar-se, entusiasmar-se, exaltar-se ou, como quis o cinema americano nos convencer, pode ser “à primeira vista”.

Talvez por essa dupla injunção da palavra namoro ela não nos sirva para definir a relação afetiva entre dois adultos cujas trajetórias comportam casamentos anteriores, histórias de vida com famílias recompostas, filhos etc. Talvez a palavra carregue expectativas demais. Sejam expectativas românticas (namorar como um eterno e irresponsável ‘estar apaixonado’ que nos faria ver o mundo cor-de-rosa), sejam expectativas de manutenção no tempo de uma relação que pode pretender não ser nada muito além de…

Aí está o problema, não temos uma palavra para isso que (ainda) não é um namoro, mas também não é um mero “ficar” porque não tem o mesmo caráter fugidio do termo.

Entre jovens, namorar costuma ser – ainda que não seja uma regra – uma primeira etapa para um percurso de conjugalidade que se desdobrará depois em casamento. Entre adultos, a ideia da permanência no tempo de um namoro é mais complicada justamente porque, na maioria dos casos, pelo menos um dos lados implicados no namoro não pretende desdobrar aquela relação em um novo casamento. Sim, estou tratando muito particularmente do namoro entre adultos ex-casados, aqueles que já tiveram filhos, sogros, sogras e o pacote-família completo.

Muitas mulheres com quem converso me dizem que não querem casar, que “só querem namorar”. Mas se namorar, nestes termos, não é se apaixonar, só pode ser sustentar uma relação afetiva no tempo. Mas se namorar já é o máximo de envolvimento que dois adultos que saíram de outros casamentos e já formaram famílias anteriores estão dispostos a ter, então namorar é praticamente um sinônimo de casar. Namorar é fazer parte da vida do outro, é querer que o outro faça parte da sua vida, é colocar o outro como significado principal e orientador de todas as suas ações, decisões e agenda. Atitude que, em geral, ficou para trás com o fim do casamento.

O desejo de “só namorar” já supõe um tipo de compromisso que não pode se dar a priori, não pode se dar como premissa para que a relação se desenvolva. Namorar, para usar um termo freudiano, só-depois. Ou seja, é só-depois que a relação se estabeleceu que ela poderá se habilitar a vir ser chamada de namoro.

Fica então faltando um nome a dar para o relacionamento contemporâneo entre dois adultos que se encontram, estabelecem uma relação afetiva, se gostam, se desejam, mas ainda não se comprometeram com a manutenção daquela relação no tempo. E talvez não venham a se comprometer a tempo de chamar a relação de namoro.

Muitas mulheres acham que essa falta de nome ou de definição só interessa ao modelo do “safe sex”, para citar o artigo de Francisco Bosco no Globo de hoje: o cara tem uma companhia agradável e certa para o sexo de sábado à noite, e é só isso que ele quer. De fato, enquanto estas mulheres se confirmarem neste lugar, se submeterão ao “safe sex”, ansiosas por se tornarem a próxima namorada. E elas se confirmam nesse lugar porque estão sempre lá, garantido que o “safe sex” seja de fato “safe”, garantido, seguro, programado, agendado, sem falta.

Se puderem aproveitar a liberdade de não ter que se definir por um verbo – ficar, namorar, casar – talvez possam começar a aproveitar de muitos papéis ou lugares, e principalmente das transformações nas relações afetivas contemporâneas. Para isso, será preciso não pretender extrair o seu valor pela medida do quanto fazem parte da vida do outro, mas pelo quanto fazem pela própria vida.

4 opiniões sobre “Ficar, namorar, casar: livre-se dos verbos”

  1. Um texto e muitas introspecções… Prefiro, no momento, conjugar todos os verbos no pretérito perfeito, e assim, sentir-me liberta de todos eles. Resolvida. Laboratórios de experimentações nunca foram meu forte!
    Abraço, Célia.

  2. Oi, Carla. Gostei muito do seu artigo. Acabei de me separar, tem dois meses e meio, e meu ex está namorando (rs) há 2 meses… apresentou sua nova namorada a minha filha (minha pq apesar dele tê-la feito junto comigo…) de 5 anos estando 15 dias fora de casa. Eu queria me separar desde 2009, ele não. Cada vez que tocava no assunto ele “surtava” era agressivo, quebrava coisas em casa. Menos de 1 mês depois da separação assumiu essa relação no FACEBOOK! A leva aos espaços de militância que são comuns a nós dois, e ela é amiga da mulher de um amigo em comum, padrinho da minha filha, e do qual fui madrinha de casamento! Tá sendo mt difícil pra mim, sofri, proibi que ele pegasse minha filha. Amigos em comum ficam tentando me convencer que ele tem “direito” de sair com quem quiser uma vez que eu quis terminar. Por acaso uma amiga conheceu a história de namoro dessa menina e segundo o que me contou, ela era mt submissa desde então! Seu artigo me ajudou a ver de forma mais clara o que está acontecendo. Obrigada!

  3. Carla,

    Texto muito bom.

    Sabe, algumas preocupações muitas vezes tolas podem fazer as pessoas nao aproveitarem bem os bons encontros.

    Ate nossa conversa, nunca entrei tanto no merito no que namorar de fato significa para adultos que, a principio, nao querem casar por estarem felizes descasados.

    Para mim significa estar com alguém que se gosta, com quem tem uma afinidade diferenciada, boas conversas, sexo. Outro ponto importante, liberdade bilateral para propostas a dois e obviamente, para momentos de plena e deliciosa solidao.

  4. Por aqui, quando descasados namoram, mas não moram juntos, usamos a palavra: namorido.

    Não é verbo , mas é como se fosse.

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