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Vende-se uma cidade – e quem compra?

Junte três moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro em torno de uma mesa e marque 15 minutos no relógio. É o tempo que vai levar para a conversa começar a girar em torno dos preços dos imóveis. O mercado imobiliário virou, para nós, o que é o clima para os ingleses ou o trânsito para os paulistas: assunto obrigatório, quase deselegante recursar-se a participar. Na roda haverá sempre uma história de alguém que conhece alguém que conhece alguém que vendeu um apartamento por um preço estapafúrdio: conjugado em Ipanema por 900 mil reais, sala e dois quartos no Flamengo por 750 mil, ou qualquer outro absurdo no gênero.

Parece que a cidade inteira está à venda – e nenhum de nós sabe exatamente quem tem dinheiro para comprar. Sobre a tal esculhambação imobiliária, já li nos jornais que são investidores internacionais que decidiram comprar tudo por aqui. Parece que o dinheiro paulistano também tem parte de culpa no cartório. Desde que nos tornamos o balneário dos paulistas – é mais prático vir a praia no Rio de Janeiro, de ponte-aérea, do que pegar engarrafamento na Castelo Branco ou na Ayrton Senna para deixar a cidade – os preços quadruplicaram.

A tal bolha de preços dos últimos dois ou três anos foi provocada também pela combinação entre a escolha da cidade Olímpica, o suposto sucesso das UPPs e uma suposta defasagem de preços, que hoje estão em alta por conta de uma especulação que move, sempre, tudo que atende pelo nome de mercado.

Acontece que viramos todos especuladores. Queremos achar uma pechincha na zona portuária contando que daqui a quatro anos vai dobrar, triplicar de preço. Queremos uma casa velha em algum lugar que será descoberto em breve, quem sabe pelos investimentos do Mr. X? Queremos de alguma maneira entrar na festa que, claro, está desde sempre barrada para nós, que logo estaremos expulsos da cidade.

Não consigo entender, por exemplo, onde vão morar os proprietários que estão vendendo seus imóveis: vão morar num apartamento menor, mas igualmente caro? Vão embora para Maricá, aquele balneário no litoral fluminense recentemente incorporado à Região Metropolitana?

Até porque, os preços dos aluguéis seguem a mesma lógica. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém a quem o proprietário pediu um aluguel absurdo por um cubículo qualquer. Quem pode, desiste de gastar uma fortuna para viver na cidade e se despenca para longe, sabendo que o preço da liberdade é o eterno engarrafamento. Façam suas apostas: ponte Rio-Niterói, Linha Vermelha, Avenida Brasil, Avenida das Américas, Linha Amarela e daqui a pouco o túnel da Grota Funda.

A cada vez que, 15 minutos depois, a conversa vai parar no mercado imobiliário, é possível constatar que, além de especuladores, também viramos todos especialistas em imóveis. Cada um tem uma história para contar ou um palpite sobre o melhor a fazer. Comprar logo, porque vai subir mais. Comprar o que der para comprar, porque é preciso ter alguma coisa. Não comprar agora, porque não é possível que vá ficar assim. Comparar com a bolha norte-americana, e torcer para não acontecer aqui, porque não temos sub-prime.

A situação me lembra um filme do Alain Resnais, Amores parisienses, estranha tradução de “On connaît la chanson”. O mercado imobiliário parisiense e a busca por um apartamento para morar é metáfora do diretor para histórias de encontros e desencontros amorosos, dificuldades de compromisso e reflexões sobre a solidão na capital francesa, famosa pelos apartamentos pequenos e caros bem antes do Rio de Janeiro ter se tornado sua forte concorrente no quesito. E, claro, casamento em casas separadas torna-se um luxo inviável para um casal que mal consegue dar conta de pagar por um imóvel.

Em Barcelona, parece que a cidade revitalizada para as olimpíadas mudou de donos. Aqui, estamos sendo empurrados para fora aos poucos, num movimento que pode mudar a cara da cidade mais profundamente do que as tais obras de revitalização. Já mudou, por exemplo, a pauta das mesas de bar, orientadas pelo tal do mercado e não pelo mero prazer de jogar conversa fora.




5 comentários para “Vende-se uma cidade – e quem compra?”
  1. Célia Rangel:
    10-02-2012 - 7:30 pm

    A mesma situação em Ribeirão Preto! A zona sul, os Altos da João Fiuza, tornou-se o point do luxo… no entanto, a região central teve seu metro quadrado triplicado em valores se comerciais, então ai é que ferve! Imagine que há telemarketing pra vender imóveis! E, insistentes! Acho que partirei para um trailler, assim paro em cada esquina, viajo com a casa nas costas feito tartaruga, pois a situação imobiliária no país não está à passos de quelônio, não!!
    Abraços, da Célia.

  2. Djalma Toledo:
    18-02-2012 - 1:35 pm

    “Estou vendendo uma Cidade
    Quem vai levar
    Quem vai levar
    Quem comprar leva consigo
    Todo encanto que ela traz
    Leva o mar, as matas, as serras
    O ouro, a prata, a praça, a paz
    E de quebra leva o Samba
    De sua gente se agradar
    Estou vendendo uma cidade
    Quem vai levar
    Quem vai levar …”

    Plágio do Chico
    Espero não ser processado

    rsrs

    DJ

  3. Zem-dhor:
    19-02-2012 - 12:55 am

    Estamos no rumo do pico universal do cinismo e da falsidade. Quem vive aqui sabe que é um lugar de pessoas extremamente egoistas, que não respeitam regras mínimas de convivência e de utilização dos equipamentos urbanos. Os responsáveis pela infra e pela ordem só se interessam por seus próprios privilégios. Vivemos em péssimas condições sanitárias e de locomoção. Pagamos muito mais que apenas o podre dinheiro para estar no meio da beleza que a natureza nos legou. Beleza, alias, que está sendo estropiada exatamente por esta especulação, constatada pela podridão que virou as lagoas e praia da Barra da Tijuca. Quem conheceu aquilo lá ainda maravilhoso, hoje chora ao ver o resultado da esperteza de sempre. O espertos embolsam o dinheiro. Os otários ficam com o esgôto.

  4. Djalma Toledo:
    29-02-2012 - 2:43 pm

    E o Rio

    de Janeiro, pois era época de chuvas e temporal, que antigamente o tempo era como um relógio

    não cuida de seus Rios

    Quase todos estão mortos

    Vejo agora com imenso pezar a Prefeitura concreetando os Rios daqui da Freguesia
    E aqui não há enchentes.

    Para eles canal de esgotos

    Quem tem noção os Rios são uma dádiva da Natureza

    Uma coisa Sagrada

    Era só não poluirem os Rios, não lançarem esgotos, e deixa-los seguirem seu curso.

    DJ

  5. Djalma Toledo:
    01-03-2012 - 12:53 pm

    Fui falar em Rios vem a ‘minhoca’

    O Crivella (não gosto dele) diz

    que não sabe “nem colocar minhoca no anzol”

    Oh! Dilma Oh! Dilma …

    Fonte: uol

    DJ