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Tudo se reproduz como cópia

Um dos sinais da pretensa sofisticação da rua Dias Ferreira – o Soho do Leblon, a julgar pelas páginas de jornal e pelo desejo dos moradores do bairro – é a quantidade de bons restaurantes japoneses.

Do Manekineko, em frente à livraria Argumento, ao futuro novo japonês que será inaugurado onde era o bom e velho Ateliê Culinário, são seis casas especializadas em comida japonesa em apenas três quarteirões. Estou contabilizando o balcão de sushis do supermercado Zona Sul.

Mas como todo mundo está cansado de saber, os verdadeiros sushimans desta cidade são cearenses migrantes que aprenderam a cortar peixe e enrolar os bolinhos japoneses, seguindo a escola de japoneses autênticos como o Tanaka, fundador do Miako, no centro do Rio, e pioneiro na culinária oriental na cidade.

Por isso, e porque tudo se reproduz como cópia, não cheguei a me espantar quando vi que, na favela da Tijuquinha, que atravesso todos os dias para chegar em casa, acaba de ser inaugurado o Mr. Sushi, um pequeno restaurante japonês cravado na beira da calçada, espremido entre os bares mais populares da favela que ostentam letreiros patrocinados por uma cervejaria.

A mesma sensação – a de que tudo se reproduz como cópia – tenho quando caminho entre camelôs ou lojas populares. Todas as tendências da moda noticiadas nas revistas especializadas estão ali, sejam os laços de fita de Maria Antonieta, sejam as cores do inverno (muito cinza!), sejam os balonês do verão, sejam as malhas do loungewear – o nome mais besta que alguém pode dar a roupa confortável para ficar em casa.

O que na moda da elite é tendência reaparece, reinterpretado, como item de consumo para os que, dispostos a gastar no máximo R$ 10,00, também querem experimentar a sensação de inclusão que o consumo – de comida, de roupa ou de qualquer outro item que forneça status e reconhecimento – oferece.

As favelas estão cheias de lan-houses com acesso à Internet, automóveis estacionados nas calçadas e algumas até oferecem estacionamento coberto com mensalidade para moradores que, mesmo habitando um pequeno cubículo (com varanda, a última tendência nos edifícios de Rio das Pedras), estão dispostos a pagar algum dinheiro para que seus carros também durmam em cubículos.

De tudo isso, só o que me entristece é que os livros não tenham sido transformados em objeto de desejo ou item de consumo.




9 comentários para “Tudo se reproduz como cópia”
  1. Luiber:
    28-09-2007 - 3:40 pm

    Esse negócio de transformar o Leblon em vitrine de pessoas é mesmo coisa de novela. Morei 30 anos no bairro, e quem é de lá mesmo não tem esse deslumbre todo, não. Leblon tem praia, boteco, cinema, pracinha e campo de pelada (esses, infelizmente, acabaram). É só você procurar saber quem são as pessoas que ficam fazendo pose em sushi bar. Duvido que 10% sejam do bairro.
    Mas em relação aos livros, acho que nem tudo está perdido. A Bienal estava botando gente pelo ladrão.
    E os organizadores disseram que os números foram positivamente assustadores.
    Mas quando a novela das oito (grande referência da cultura nacional, gostemos disso ou não) coloca como mocinha uma mulher jovem que fala errado, não sabe se portar (isso não tem nada à ver com poder aquisitivo) e abandona uma profissão de garçonete (desmerecendo centenas de moças que vivem dignamente desse trabalho) para rodar bolsa no calçadão, querer que a população leia e se instrua torna-se realmente uma batalha árdua.

  2. Luiber:
    29-09-2007 - 10:47 am

    Carla – Você encerrou o post com um comentário sobre o desinteresse por livros. E hoje, lendo o trecho de uma entrevista de Mia Couto (não conheço) no blog do PD, um pedaço me chamou a atenção:
    “_ É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar.”
    Não sei se ele está sendo pessimista, mas se isso for verdade, o caso é mesmo grave.

  3. Warenoko:
    29-09-2007 - 4:47 pm

    Eu era pequenininha, mas creio que o Tanaka san não foi o fundador do Miako (o do Centro, na rua do Rosário na esquina com a Primeiro de Março). Ele trabalhou lá, mas depois conseguiu independência e abriu o seu próprio, no segundo andar de um sobrado no Centro mesmo. Um amigo do meu pai, japonês também, tinha me levado lá e lembro-me da frase : “Filha, o Tanaka san faz o melhor sushi da cidade”. E ele ria atrás do seu balcão. Fato comprovado com o tempo.
    O Miako do Centro, que pertence à família da Margarida (ai, como era mesmo o sobrenome dela ?Aliás, ela é japonesa, mas todo mundo só chama de Margarida sei lá por quê) na realidade é uma filial do primeiro Miako lá em Belém do Pará, onde existe uma grande comunidade japonesa.

  4. Luciene Costa:
    30-09-2007 - 12:57 am

    Luiber, não considero Mia Couto um pessimista, não, viu? Acho que ele é um excelente observador, sempre “atento às vozes”, como ele mesmo diz.

  5. Paulo Cesar:
    01-10-2007 - 3:10 pm

    Carla, justamente porque a cultura tem que ser marginal, para que as coisas se reproduzam como cópia, os livros vão ficando para trás. É uma pena que a maioria das pessoas lembrem , hoje, os livros de Asimov, pois manipulam cisas e vidas e criam modas sem nem mesmo saberem ler ou escrever ou , então, a origem daquilo que estão9 fazendo. Pena, pois parece que, com o sistema educacional brasileiro, teremos , dentro de poucos anos, apertadores de botões. Mais nada. E a cultura, que tem no livro sua máxima expressão, será uma coisa para confrarias. Pena mesmo…

  6. Simone:
    01-10-2007 - 7:02 pm

    Nesse vácuo é deveria entrar a prefeitura com uma boa biblioteca pública. Acesso aos livros é primeiro passo para a sua democratização.

  7. Allan Carneiro( proessor universitário):
    03-10-2007 - 10:21 am

    Estimados brasileiros que ainda possuem bom senso.
    Capacidade de indignação e reflexões sobre as dificuldades de acesso ao livro e criar o hábito da leitura é tarefa de médio prazo. Façamos urgente que os nossos livros estejam disponiveis para pelo menos 3 pessoas de nossa comunidade por mês, a juventude agradece. Hábito conquistado futuro transformado. Doe livros SEMPRE!

  8. Muié:
    08-10-2007 - 2:43 pm

    E este negócio de balonê?
    Cruz credo!
    Que coisa horrível!!!!!!!

  9. vicodin detox:
    30-07-2008 - 12:37 am

    vicodin…

    watson vicodin…

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