“A representação nunca foi um sistema inventado para amenizar o impacto do crescimento das populações. Não é uma forma de adaptação da democracia aos tempos modernos e aos vastos espaços. É, de pleno direito, uma forma oligárquica, uma representação das minorias que têm título para se ocupar dos negócios comuns”, argumenta o filósofo Jacques Rancière nesta entrevista em que ele explica que a necessidade de representação não é resultado do crescimento populacional, mas uma estratégia de manutenção do poder na mão de poucos.

Vou nomear “morte” esse indizível sobre o qual não se sabe, não se pode ou não se consegue falar, embora o noticiário esteja nos colocando diariamente diante do luto, seja com as mortes históricas, como a do candidato Eduardo Campos, sejam com perdas de figuras públicas que já marcaram o ano de 2014. Mais sobre aquilo que não sabemos falar, aqui.

Talvez haja um laço tão indissolúvel entre sujeito e sintoma, entre sintoma e sujeito, que a psicanálise não seja nada além do que a abertura a um outro que perturbe essa fusão pelo menos a ponto de permitir ao sujeito fazer do sintoma um outro.

Até agora eu estava passando batida pelas eleições. Não vi o debate na TV e estou particularmente envolvida com outros temas digamos, mais pessoais e menos políticos. Mas há algumas semanas, conforme o debate se acirra, parece cada vez mais urgente tomar posições. Do pouco que tenho tido a oportunidade ou a vontade de ler, uma das melhores leituras que encontrei foi Por que não vou votar em Dilma, com muitos dos argumentos de Moysés Pinto Neto? com os quais eu concordo. Como eleitora do PT desde primeira hora, consigo dialogar com a argumentação do Moysés justamente por não ter como a priori ser anti-PT. Suas críticas são pertinentes e eu vinha alimentando a ideia de escrever uma réplica, mas ainda não estou segura sobre o que dizer. Não gosto do que considero uma falsa polarização Dilma/Marina, e como velha repórter de política, a cada manchete que leio inflando a candidatura da Marina, me lembro da cobertura da campanha do Collor, das adesões por conveniência quanto mais parecia que ele era o único capaz de derrotar o PT. Por não gostar dessa polarização, venho alimentando a ideia de votar no PSOL, uma espécie de começar de novo, de volta à velha esquerda sem poder, voto ideológico no primeiro turno, forçando uma negociação com o campo da esquerda no segundo turno. Mas são reflexões que ficam parecendo inúteis ou irresponsáveis diante da possibilidade de derrota do PT no primeiro turno.

Enquanto penso nisso, enquanto reflito sobre como e no que vou escrever, assino embaixo as palavras de Boaventura Sousa Santos, um pensador que eu respeito há muitos anos. Num dos trechos desta entrevista, ele diz: “Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. São governos que eu considero progressistas. Não os considero de direita. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia. Mas o que esses governos fazem e que a direita nunca fez na América Latina foi redistribuir esses rendimentos de alguma maneira. Distribuem muito mais que os outros governos. Para muitos grupos sociais, isso não é suficiente. Até porque essa forma de redistribuição é relativamente precária, não é com direitos universais, é algo que pode parar de um momento para outro. Mas há problemas. Os ambientais são extraordinários.”

por Carla Rodrigues