Desde que fóbico virou sufixo – homofóbico, transfóbico, islamofóbico – que tenho pensando no uso do termo na política. Fobia, no dicionário, quer dizer medo exagerado, intolerância, aversão, mas no vocabulário da psicopatologia também quer dizer “um estado de angústia impossível de ser dominado”. Ou seja, ser fóbico é carregar consigo um dos sintomas das neuroses de angústia. Quando se usa fobia como sufixo, se está também dizendo que determinadas posições sociais – os homossexuais ou os islâmicos – podem produzir em determinados sujeitos uma neurose de angústia tal que só passa a ser possível encarar aquele que produz fobia com uma “violenta reação de evitamento que sobrevém de modo relativamente persistente”, para continuar usando os termos do Dicionário Houaiss. Então, ainda pensando só a partir do significante fobia – ação de horrorizar, amedontrar, do grego phóbos – sinto saudade do tempo em que erámos felizes por que só tínhamos medo.

Bem-vindo a 2015 ou de volta para o passado

E assim se passaram 15 anos desde que você ouviu falar no bug do milênio e alguém disse que o mundo iria acabar , ou pelo menos os sistemas entrariam em colapso. Fala sério – e há quanto tempo você não ouve essa expressão que já foi moda –, o século não só continua aí, como sobreviveu a outros anúncios de fim do mundo. 2001 não foi uma odisseia no espaço, mas desde que as torres gêmeas foram derrubadas a marca da guerra se impôs sobre nossas vidas.

Se por um lado a violência cotidiana é como o combate ao terrorismo – há sempre a suposição de um inimigo oculto à espreita –, por outro lado parece que o remédio contra a hostilidade foi a glamurização do mundo. Tudo é diferenciado, gourmet, customizado, tanto e a tal ponto de termos chegado ao paradoxo de banalizar o luxo. Nisso, a simplicidade virou o verdadeiro luxo, e estamos de volta a uma espécie de metafísica do autêntico.

Se entramos nos anos 2000 achando que o mundo acabar, e se hoje rimos das profecias dos Maias que previam o apocalipse para um já velho dezembro de 2012, é porque há de fato no ar alguma coisa de finitude. Mudanças em ritmo vertiginoso dão esta impressão, a de que o mundo tal qual o conhecíamos acabou. Os tempos que literalmente correm são outros, desconhecidos, sombrios, e sobretudo vorazes e ansiosos por mais uma novidade. E neste início de 2015 a única coisa nova é a nossa nostalgia do passado.

É sério que nós estamos em 2015, uma mulher tomou posse na presidência da República, e estamos discutindo o vestido que ela usou? Ou “eu tive um sonho ruim e acordei chorando” ou talvez seja melhor começar de novo o ano novo.

2015, o ano do rock

Rock é um cachorrinho alegre, um samoieda cuja presença veio animar as nossas festas. É um bebê de menos de três meses que fica feliz de nos dar de presente seu xixi e seu cocô, as únicas coisas que tem para dar. Cuidar dele é ensiná-lo a fazer uma troca – em vez de nos dar o seu cocô, nos dar carinho, afeto e amizade. A rigor, essa é a troca que nós todos temos a fazer. Deixar de dar ao mundo o nosso cocô para dar carinho, afeto, amizade e tudo que temos de melhor. É essa a minha esperança para o ano novo, que sejamos generosos, dando o melhor de nós, por que essa doação também nos faz melhor. Reclame menos, conte até 10 antes de resmungar, e aproveite esse pequeno espaço de tempo para guardar o seu cocô só para você. Em 2015, espalhe a sua alegria por aí.

A primeira vez que repeti em público a frase da filósofa Judith Butler – “O gênero não existe” – causei profundo estranhamento a feministas que vinham de uma linha de estudos e militância formada a partir da decisiva distinção sexo/gênero. Gênero como cultural, oposto a sexo como biológico, havia sido um conceito fundador da segunda onda do feminismo, e foi um operador da libertação do destino biológico das mulheres. Era preciso – a rigor, infelizmente, ainda é – reivindicar que o sexo anatômico não pode fundamentar hierarquias sociais, políticas e econômicas. Para continuar lendo, clique aqui.

por Carla Rodrigues