Com enorme atraso, chega às livrarias a tradução do Manifesto contrassexual, da pensadora espanhola Beatriz Preciado. Um lindo livro-objeto, e infelizmente ainda uma raridade nas prateleiras.

Uma das coisas estranhas de envelhecer é ser tratada como idiota pelos gerentes de banco. A ideia de que um cliente de cabelos brancos não sabe como usar um aplicativo de telefone e, por isso, deve ser infantilizado, é das muitas confusões da cultura brasileira. Ser gentil ou educado não é’ nos tratar como incapazes. Haja paciência. A coisa fica ainda mais grave se considerarmos que o meu envelhecimento tem principalmente a ver com o fato de eu me recusar a pintar os cabelos. Estão ficando brancos, e são uma espécie de senha para que os jovens atendentes me tomem por uma completa imbecil.

E por falar em cabelos brancos, orgulho das minhas amigas em Brasília, na firme defesa da descriminalização do aborto.

Delicadeza, segundo Roland Barthes: “Sofrerei pois com o outro, mas sem exagerar, sem me perder. A esta conduta, ao mesmo tempo muito afetiva e muito vigiada, muito amorosa e muito vigiada, podemos dar um nome: é a delicadeza: ela é como a forma “sadia” (civilizada, artística) da compaixão. (Ate é a deusa do desvario, mas Platão fala da delicadeza de Ate: seu pé é alado, toca levemente.)”

Uma sala de atendimento na Receita Federal é um teatro do absurdo. Ao meu lado há uma funcionária ensinando uma pessoa a plastificar um CPF que ela acaba de imprimir. Explica, candidamente: “o verdadeiro” a receita não entrega mais, sem se dar conta de que está tomando por falso o documento que acaba de entregar.

Mantra para 2015 e mais: A barbárie se tivermos sorte. A partir do ótimo livro do filósofo marxista húngaro István Mészáros.

por Carla Rodrigues