Um dia com meu smartphone


Toca o despertador. Na verdade, toca o aplicativo de despertador do meu telefone. Desde que fiz a substituição, passei a acordar menos agressiva, considero o custo que seria jogar o telefone/despertador longe, ato de resistência que me acompanhou a vida inteira. “E tenho muito sono de manhã” era meu mantra, meu verso favorito. Acordo, faço café, e sento na minha poltrona favorita para ler o noticiário. Meu noticiário agora está no facebook, abro o aplicativo e confiro a timeline. Baixo também os primeiros emails do dia, respondo o que for urgente. Hora do banho, é preciso sair de casa. Consulto a previsão do tempo. Parece que vai chover a partir das 16h. É pelo telefone que chamo o táxi, e enquanto me arrumo vejo o carro chegar até a minha casa pelo mapa geolocalizado. Do táxi ao metrô são 10 a 15 minutos. Dá tempo de fazer uma ou duas ligações, depende do dia, da urgência, da hora, da agenda. Embarco no trem, e dali respondo a novos emails, adianto decisões, checo os compromissos na agenda. Dia desses, foi na viagem de metrô, usando pela primeira vez um aplicativo de supermercado, fiz as compras da semana on-line. Cliquei no botão “enviar” bem na hora de desembarcar na estação. Quando começo a aula, o telefone é de novo o meu relógio, agora para marcar o horário de início e de fim do encontro com a turma. No fim do dia, depois de horas em sala de aula sem acesso ao telefone, existem mensagens mais urgentes – zapzap, messenger, SMS – e novos emails, estes vão esperar até amanhã.

Onde encontrar o que as urnas vocalizaram do que as ruas gritam desde o ano passado? No descrédito com a política tradicional e com as formas democráticas que, a rigor, mantiveram uma estrutura de total afastamento entre estado e povo pode encontrar diferentes formas de expressão. Além de uma negação expressiva, é preciso considerar também – ou principalmente – que a votação em candidatos da extrema-direita é parte do mesmo fenômeno.
http://www.blogdoims.com.br/ims/as-urnas-e-as-ruas

Da atualidade da filosofia de Jacques Derrida, em A farmácia de Platão: “É preciso, com efeito, saber que Platão suspeita do phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções, e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico. (…) A essência ou a virtude benéfica de um phármakon não o impede de ser doloroso.”

Toda discriminação é única. Para mim, a mais frequente discriminação de gênero está num tom autoritário que pretende me comandar porque eu sou mulher, logo burra, logo devo ser comandada. Aquilo que eu sinto quando sou discriminada é incomparável ao que outras mulheres, ou negros, ou homossexuais sentem quando são discriminados. Não há como quantificar ofensas, nem como estabelecer uma escala métrica para essas agressões. São cotidianas, estão naturalizadas, e em geral o seu interlocutor está tão bem fundamentado nessa naturalização que negará. “Eu não tive a intenção”, dirá candidamente, como se o erro estivesse em você, que se sentiu ofendida por nada. Por isso as vezes a violência de gênero é tão difícil de ser combatida, responder a ela é enfrentá-la pelo menos mais uma vez.

42.654 mil votos a mais levaram o Crivella pro segundo turno. O projeto dos neopentecostais é eleger um presidente da República. E a base desse projeto é o Rio de Janeiro, a única grade capital que tem um expressivo percentual de votos nesse grupo. Os fieis da Universal do Reino de Deus representam 15% do total de evangélicos e tem forte comando sobre seus fiéis. Cerca de 90% votam em quem o bispo indicar. Há 10 anos, quando o Crivella disputou sua primeira eleição majoritária, eu escrevi sobre isso. Hoje é infelizmente mais atual do que nunca: http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/458

por Carla Rodrigues