Para encerrar uma semana difícil, e pra começar a próxima semana com alguma esperança, aqui vai meu elogio a maio, o mês que, no Rio, tem algo de muito especial. Já nos despedimos do calor, já nos despedimos até daquele climinha de verão ameno que caracteriza abril. Estamos no auge do outono, mas faz verão. Europeu, quase. Termômetros civilizados, sol, e quando, como hoje, o mar está calmo, e é possível passar uma hora e meia praticando stand up paddle no Posto 6, toda a tragédia cotidiana de viver numa cidade tão violenta parece poder desaparecer. Mas o melhor de maio é seu anúncio do inverno que não virá, o que faz de maio pura promessa de felicidade.

No debate sobre redução da maioridade penal, tenho um ponto: chega de jogar a culpa em cima das mães. Há todo um discurso a favor da redução baseado no argumento de que os menores infratores estão largados nas ruas, abandonados por suas mães. E ninguém vai perguntar pelo pai?

Rio de Janeiro, maio de 2015: uma criança de 13 anos e um rapaz de 22 acabaram mortos por policiais civis no morro do Dendê. Ontem um ciclista de 55 anos foi esfaqueado e morto na Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas hoje a cidade não acordou de luto, nem pelos mortos do Dendê, nem pelo morto da Lagoa. As bandeiras nos palácios não estão a meio pau, as pessoas estão indignadas por cinco minutos, mas estão, como eu, saindo para o trabalho, tocando as suas vidas, simplesmente porque é preciso. Luto é luta. É para parar tudo, chorar pela cidade perdida, pelas vidas perdidas, quebrar a rotina da violência também é quebrar nossas rotinas.

“Lugar de Mulher: é onde ela quiser” é o título de um livro escrito por três mulheres e uma espécie de palavra de ordem das jovens feministas. Do meu ponto de vista, me parece que antes disso é preciso afirmar que lugar de feminista é onde ela quiser. Pode-se ser feminista e ser contra ou a favor da lei do feminicídio, a favor ou contra a legalização da prostituição, a favor ou contra a pornografia, a favor ou contra a descriminalização do aborto, a favor ou contra a liberação sexual, a favor ou contra as mulheres trans (embora eu ache absolutamente ridículo ser contra mulheres trans, sei que há quem pense diferente). Pode-se ser só militante, ser só teórica, ser branca, negra, rica, pobre, hetero ou homossexual. Ser feminista, antes de tudo, é ser a favor da liberdade de escolha das posições a tomar. Qualquer tentativa de fechar “o feminismo” numa categoria qualquer é tão anti-feminista que, por mim, não pode nem ser levado a sério como estratégia política.

Outono no Rio

Se é outono, está úmido, você mora no Rio de Janeiro e tem asma, e seu cachorro solta muito pelo, então você está numa situação pior do que a do governo Dilma. Mas se você é professora universitária, a universidade está fechada por falta de pagamento dos funcionários terceirizados ao mesmo tempo em que aprovou-se a lei da terceirização – coincidência, aliás, das mais incompreensíveis -, então você pensa que não pode haver nesse momento nada em situação pior do que o governo Dilma.

por Carla Rodrigues


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