“A morte do outro, não apenas mas sobretudo se o amamos, não anuncia uma ausência, um desaparecimento, o fim desta ou daquela vida, o saber da possibilidade de um mundo (sempre único) aparecer a um tal vivente. A morte declara a cada vez o fim do mundo em sua totalidade, o fim de todo mundo possível, e a cada vez o fim do mundo como totalidade única, portanto insubstituível e portanto infinita”. Jacques Derrida, Chaque fois unique, la fin du monde, Paris, Editions Galilée, 2003.

“Para o leigo, o luto pela perda de algo que amamos ou admiramos parece tão natural, que ele o considera evidente por si mesmo. Para o psicólogo, porém, o luto é um grande enigma, um desses fenômenos que em si não são explicados, mas a que se relacionam outras coisas obscuras. Nós possuímos – assim imaginamos – uma certa medida de capacidade amorosa, chamada libido, que no começo do desenvolvimento se dirigia para o próprio Eu. Depois, mas ainda bastante cedo, ela se dirige para os objetos, os quais, por assim dizer, incorporamos em nosso Eu. Se os objetos são destruídos, ou se os perdemos, nossa capacidade amorosa (libido) é novamente liberada; pode então recorrer a outros objetos em substituição, ou regressar temporariamente ao Eu. Mas por que esse desprendimento da libido de seus objetos deve ser um processo tão doloroso, isso não compreendemos, e não conseguimos explicar por nenhuma hipótese até o momento. Só percebemos que a libido se apega a seus objetos, e mesmo quando dispõe de substitutos, não renuncia àqueles perdidos. Isso, portanto, é o luto.” Freud, A transitoriedade, tradução de Paulo Cesar Sousa, edição Cia das Letras, p. 250.

“Morrer, então, consistirá em apartar-se da alma o corpo, ficando este reduzido a si mesmo, e por outro lado, em libertar-se do corpo a alma e isolar-se em si mesma? Ou será a morte outra coisa?” Platão, Fédon, 63b64c.

“É digno de nota que nunca nos ocorre considerar o luto um estado patológico, nem encaminhá-lo para tratamento médico, embora ele acarrete graves desvios da conduta normal da vida. Confiamos que será superado depois de algum tempo e consideramos inadequado e até mesmo prejudicial perturbá-lo”. Freud, Luto e melancolia, edição CosacNaify, tradução Marilene Carone.

A que horas ela volta?

A piscina da casa em que trabalha a empregada doméstica Val, vivida pela atriz Regina Casé em “A que horas ela volta?”, o premiado filme de Anna Muylaert, é uma personagem decisiva para o desenrolar da trama que envolve as duas famílias. Piscina que pode representar área de lazer e diversão, restrita aos donos da casa, piscina que também simboliza status social e coloca em jogo justamente a desigualdade posta em questão pela narrativa. Para mim, no entanto, a piscina onde Jessica mergulha e cuja da água é depois condenada pela madame é o lugar da troca de fluídos. Mesmo que os corpos não se encostem, é como se os corpos tocados pela mesma água pudessem ser contaminados. É muito sintomático, portanto, que Val só consiga entrar na piscina quando ela já está vazia – superação e frustração juntas. A piscina me fez lembrar todos os preconceitos contra os corpos pobres e negros nas águas das praias da Zona Sul. E, por fim, fiquei estarrecida com o fato de o filho da madame, depois de não passar no vestibular, ganhar como prêmio de consolação uma viagem de seis meses no exterior. É realista, quase documental, e por isso mesmo tão chocante.

por Carla Rodrigues