Onde encontrar o que as urnas vocalizaram do que as ruas gritam desde o ano passado? No descrédito com a política tradicional e com as formas democráticas que, a rigor, mantiveram uma estrutura de total afastamento entre estado e povo pode encontrar diferentes formas de expressão. Além de uma negação expressiva, é preciso considerar também – ou principalmente – que a votação em candidatos da extrema-direita é parte do mesmo fenômeno.
http://www.blogdoims.com.br/ims/as-urnas-e-as-ruas

Da atualidade da filosofia de Jacques Derrida, em A farmácia de Platão: “É preciso, com efeito, saber que Platão suspeita do phármakon em geral, mesmo quando se trata de drogas utilizadas com fins exclusivamente terapêuticos, mesmo se elas são manejadas com boas intenções, e mesmo se elas são eficazes como tais. Não há remédio inofensivo. O phármakon não pode jamais ser simplesmente benéfico. (…) A essência ou a virtude benéfica de um phármakon não o impede de ser doloroso.”

Toda discriminação é única. Para mim, a mais frequente discriminação de gênero está num tom autoritário que pretende me comandar porque eu sou mulher, logo burra, logo devo ser comandada. Aquilo que eu sinto quando sou discriminada é incomparável ao que outras mulheres, ou negros, ou homossexuais sentem quando são discriminados. Não há como quantificar ofensas, nem como estabelecer uma escala métrica para essas agressões. São cotidianas, estão naturalizadas, e em geral o seu interlocutor está tão bem fundamentado nessa naturalização que negará. “Eu não tive a intenção”, dirá candidamente, como se o erro estivesse em você, que se sentiu ofendida por nada. Por isso as vezes a violência de gênero é tão difícil de ser combatida, responder a ela é enfrentá-la pelo menos mais uma vez.

42.654 mil votos a mais levaram o Crivella pro segundo turno. O projeto dos neopentecostais é eleger um presidente da República. E a base desse projeto é o Rio de Janeiro, a única grade capital que tem um expressivo percentual de votos nesse grupo. Os fieis da Universal do Reino de Deus representam 15% do total de evangélicos e tem forte comando sobre seus fiéis. Cerca de 90% votam em quem o bispo indicar. Há 10 anos, quando o Crivella disputou sua primeira eleição majoritária, eu escrevi sobre isso. Hoje é infelizmente mais atual do que nunca: http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/458

O ridículo do uso vulgar do termo desconstrução na política brasileira tem um componente extra: a propriedade com que se poderia usá-lo em sua forma derridiana para pensar que, desde as manifestações de rua eclodiram, em julho de 2013, o que tem acontecido é a desconstrução da política, desconstrução como aquilo que irrompe e evidencia as construções discursivas que ao longo de três décadas sustentaram a ideia de que o fortalecimento da democracia brasileira passava necessariamente por acordos com forças conservadoras capazes de evitar o pior – a participação popular – e que a democracia representativa, com todas as suas exigências de formação de bases aliadas no Congresso, é a única opção de organização social capaz de produzir estabilidade econômica, emancipação política e justiça social. Não é por acaso que a economia ancora todos os discursos em nome da democracia, como pressuposto e promessa de um dia alcançar emancipação política e justiça social. Texto completo aqui.

por Carla Rodrigues